mirando mundo

o mundo… sob um certo olhar – e interação

Visões femininas sobre o mundo pós-desenvolvido

Por Rosa Alegria*

extraído do site: http://www.perspektiva.com.br/futuro/visoes_femininas.htm

Em março desse ano, visitei o Schumacher College, no sul da Inglaterra, mobilizada pelo tema de um curso que entrou no meu radar de futurista. O programa “Development: what next?” (“Desenvolvimento: o que virá depois?”) fez ressoar em mim a vontade de olhar além de um horizonte tão carregado de nuvens e incertezas. Foram três semanas de intensas visões sobre as possibilidades do pós-desenvolvimento inspiradas por Gustavo Esteva, auto-identificado como intelectual mexicano “desprofissionalizado”, Vandana Shiva, a eco-feminista de todos os tempos e Clare Short, ex-ministra de Desenvolvimento Internacional do governo britânico. De comum entre eles, além da ferocidade das críticas ao sistema econômico, os destaques de um porvir mais feminino e acalentador para os que estão de fora do modelo de desenvolvimento que veio lá de cima e se impôs como o melhor dos mundos para os que estiveram às margens da economia oficial. O programa mexeu comigo, me fez repensar no que ainda restava de promissor nos meus ideais de desenvolvimento. Foi tamanho o impacto da mudança, que acabei reescrevendo uma apresentação que faria na Bélgica (no meio do período do curso), por ocasião da primeira conferência futurista sobre os avanços das mulheres em seu papel como agentes do desenvolvimento. Faço parte do comitê científico que estruturou o programa e as bases metodológicas de um estudo prospectivo que teve inicio na conferência. Centenas de vozes femininas estiveram em coro visualizando um mundo melhor propagado pelos ideais de Millennia 2015, uma conversação sobre o futuro da mulher que aconteceu na Bélgica, de 6 a 8 de março. Iniciei a apresentação questionando que modelo de desenvolvimento que nós, mulheres, estaríamos buscando. Desenvolvimento, como concepção masculina, não deveria ser um caminho escolhido por mulheres. Optar pelo paradigma atual de desenvolvimento significaria perpetuar um sistema decadente. De volta ao Schumacher, retomei o programa. “Todo mundo precisa de uma mudança de visão do mundo que abra espaço para o saber próprio das mulheres” – foi assim que Vandana Shiva concluiu sua passagem pela escola. De lá pra cá, tenho pensado na proximidade construtiva entre o universo feminino, desvalorizado pela lógica do capitalismo, e os novos modelos de desenvolvimento, pautados pela colaboração entre seres, comunidades, cidades e nações. Há muito o que ser reparado e reconstruído pela ótica e pela realidade da mulher. O ônus da devastação ecológica e do crescimento irresponsável se faz refletir com mais força nas mulheres, provedoras de gerações futuras. Não há melhor momento do que esse para vivermos a experiência redentora de um mundo pós-desenvolvido pautado pelos valores femininos. O desenvolvimento do crescimento ilimitado não pode continuar justificando a destruição dos recursos naturais e prejudicando a qualidade de vida da humanidade, em nome do crescimento do PIB. Em vez de fomentar a inclusão, a integração, o cuidado e o acolhimento, tão próprios do universo feminino em sua capacidade natural de gerir e nutrir o futuro, o mundo desenvolvido patriarcal sustenta-se na segregação, exclusão e fragmentação dos sistemas humanos e naturais, fazendo a sua própria espécie chegar cada vez mais perto do fim. Para traduzir o significado de desenvolvimento tal qual foi concebido nos últimos cinquenta anos, temos que passar pelos que “possuem” e pelos que “não possuem”. Este conceito de desenvolvimento foi criado pelos machos-vencedores da segunda guerra, em particular, pelo Estado norte-americano, ainda mimetizado pela era Bush, para manter a dominação do sistema que viria acentuar com perversidade a exclusão e a injustiça social perpetrados pelo chamado das nações industriais. Depois de quatro décadas de avanço em seus direitos e com a valorização de sua identidade pública, as mulheres ainda sofrem desproporcionalmente o peso da pobreza, representando 70% dos analfabetos e daqueles que vivem à margem da economia. Com essa lacuna histórica, temos de ponderar que o desenvolvimento não fez pelas mulheres o bem que deveria ter feito. Talvez tenha causado mais estragos do que o próprio progresso, como afirma Vandana Shiva. O trabalho e o conhecimento das mulheres são fundamentais para a conservação da biodiversidade porque são elas que executam tarefas múltiplas. As mulheres, tal como os agricultores, tornaram-se invisíveis, não obstante sua contribuição, e devem ser incluídas nos orçamentos nacionais e internacionais. A ideologia patriarcal que opera sob a forma do capitalismo e do neo-colonialismo trouxe prejuízos irreparáveis para a vida das mulheres e deteriorou as relações humanas em expressões econômicas machistas, sectárias e racistas. Estamos até cansados, homens e mulheres, de saber que a economia global está em conflito com os sistemas naturais e com as mais elevadas aspirações da sociedade, considerando seu desenvolvimento físico, social e espiritual. Os pulmões do sistema financeiro mundial já não mais oxigenam o fluxo de capitais, que no apogeu do seu colapso, já derreteu boa parte da economia global, numa soma que já supera o que corresponde a 18 PIBs brasileiros. Estas tendências, que marcam o stress crescente na relação entre economia, sociedade e ecossistemas, estão destruindo a vida na terra. Estas tendências que contornam a problemática da governança e dos desmandos da economia, existem há muito tempo, mas agora a perversidade econômica, revestida de desenvolvimento, está ocorrendo nos padrões da dominação, hegemonia e concentração de riqueza por meio da privação dos pobres, e da relação assimétrica entre o Norte e o Sul. A esperança, combustível que aciona o motor do futuro, foi substituída pela necessidade, com a qual delicia-se a economia de mercado, perpetuando a dependência do consumo e a energia da ganância. Populações inteiras e plenas de potencial para criar e nutrir visões positivas sobre o futuro foram colonizadas pela idéia de que há algo além de suas possibilidades, gerando um sentimento de eterna frustração em torno daqueles que não foram incluídos no sistema econômico. No entanto, estamos no fim de um ciclo histórico. Podemos ver mudanças promissoras no horizonte temporal dos próximos dez anos. A cultura patriarcal que incorporamos durante oito séculos está por um fio, seja na sala de aula, seja no trabalho ou nas nossas cozinhas. A visão integral da realidade está desinstalando a velha idéia de separação entre Ciência e Espiritualidade, Razão e Emoção, Feminino e Masculino, Humanidade e Natureza. O sistema financeiro perverso está colapsando. Novos valores entram na agenda dos governos. Países com mais recursos naturais contrabalançam a falência dos recursos financeiros. Indicadores de produção e crescimento como o PIB já não se sustentam como pilares de riqueza de uma nação. A ONU já começa a pensar na felicidade, bem-estar e qualidade de vida como indicadores pós-modernos mais completos e evolutivos. Uma análise crítica sobre esse desenvolvimento fabricado pelo poder masculino e pelos economicamente mais fortes, não só elevou meu nível de consciência sobre o que estava diante dos meus olhos, mas também antecipou o futuro que estava adiante do meu pensamento. Depois de três semanas no Schumacher College, enlevada pela beleza dos bosques milenares de Dartington, no coração de Totnes, eco-cidade que já estuda a sua transição para viver sem petróleo, voltei revigorada pela fé na mudança e pela oportunidade que brota de toda essa tremenda crise. Existem as mudanças que acontecem e as mudanças que fazemos acontecer. Para que possamos fazer acontecer as mudanças, precisamos de um mínimo de fé naquilo que somos capazes de fazer para dar novo rumo à nossa história. Afinal, como diz um provérbio chinês, se não mudarmos de direção, acabaremos onde estamos indo. No próximo artigo, vou trazer algumas evidências de que um novo mundo está em gestação e para nutri-lo, temos que antes, alimentar nossa fé no futuro, esse futuro que já começou.

*Rosa Alegria é futurista, pesquisadora de tendências, comunicóloga e ativista de midia. É diretora de Conteúdo do Mercado Ético. (Publicado originalmente Envolverde/Mercado Ético)

29 de junho de 2009 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS, VISÃO PROFUNDA | , , , , | 1 Comentário

Sinal verde para o caos da crise… para todos!

Good-bye, GM!

por Michael Moore,

traduzido daqui

http://www.michaelmoore.com/words/message/index.php?id=248

Escrevo na manhã que marca o fim da toda-poderosa General Motors.
Quando chegar a noite, o Presidente dos Estados Unidos terá
oficializado o ato: a General Motors, como conhecemos, terá chegado ao
fim.

Estou sentado aqui na cidade natal da GM, em Flint, Michigan, rodeado
por amigos e familiares cheios de ansiedade a respeito do futuro da GM
e da cidade. 40% das casas e estabelecimentos comerciais estão
abandonados por aqui. Imagine o que seria se você vivesse em uma
cidade onde uma a cada duas casas estão vazias. Como você se sentiria?

É com triste ironia que a empresa que inventou a “obsolescência
programada” – a decisão de construir carros que se destroem em poucos
anos, assim o consumidor tem que comprar outro – tenha se tornado ela
mesma obsoleta. Ela se recusou a construir os carros que o público
queria, com baixo consumo de combustível, confortáveis e seguros. Ah,
e que não caíssem aos pedaços depois de dois anos. A GM lutou
aguerridamente contra todas as formas de regulação ambiental e de
segurança. Seus executivos arrogantemente ignoraram os “inferiores”
carros japoneses e alemães, carros que poderiam se tornar um padrão
para os compradores de automóveis. A GM ainda lutou contra o trabalho
sindicalizado, demitindo milhares de empregados apenas para “melhorar”
sua produtividade a curto prazo.

No começo da década de 80, quando a GM estava obtendo lucros recordes,
milhares de postos de trabalho foram movidos para o México e outros
países, destruindo as vidas de dezenas de milhares de trabalhadores
americanos. A estupidez dessa política foi que, ao eliminar a renda de
tantas famílias americanas, eles eliminaram também uma parte dos
compradores de carros. A História irá registrar esse momento da mesma
maneira que registrou a Linha Maginot francesa, ou o envenenamento do
sistema de abastecimento de água dos antigos romanos, que colocaram
chumbo em seus aquedutos.

Pois estamos aqui no leito de morte da General Motors. O corpo ainda
não está frio e eu (ouso dizer) estou adorando. Não se trata do prazer
da vingança contra uma corporação que destruiu a minha cidade natal,
trazendo miséria, desestruturação familiar, debilitação física e
mental, alcoolismo e dependência por drogas para as pessoas que
cresceram junto comigo. Também não sinto prazer sabendo que mais de 21
mil trabalhadores da GM serão informados que eles também perderam o
emprego.

Mas você, eu e o resto dos EUA somos donos de uma montadora de carros!
Eu sei, eu sei – quem no planeta Terra quer ser dono de uma empresa de
carros? Quem entre nós quer ver 50 bilhões de dólares de impostos
jogados no ralo para tentar salvar a GM? Vamos ser claros a respeito
disso: a única forma de salvar a GM é matar a GM. Salvar a preciosa
infra-estrutura industrial, no entanto, é outra conversa e deve ser
prioridade máxima.

Se permitirmos o fechamento das fábricas, perceberemos que elas
poderiam ter sido responsáveis pela construção dos sistemas de energia
alternativos que hoje tanto precisamos. E quando nos dermos conta que
a melhor forma de nos transportarmos é sobre bondes, trens-bala e
ônibus limpos, como faremos para reconstruir essa infra-estrutura se
deixamos morrer toda a nossa capacidade industrial e a mão-de-obra
especializada?

Já que a GM será “reorganizada” pelo governo federal e pela corte de
falências, aqui vai uma sugestão ao Presidente Obama, para o bem dos
trabalhadores, da GM, das comunidades e da nação. 20 anos atrás eu fiz
o filme “Roger & Eu”, onde tentava alertar as pessoas sobre o futuro
da GM. Se as estruturas de poder e os comentaristas políticos tivessem
ouvido, talvez boa parte do que está acontecendo agora pudesse ter
sido evitada. Baseado nesse histórico, solicito que a seguinte ideia
seja considerada:

1. Assim como o Presidente Roosevelt fez depois do ataque a Pearl
Harbor, o Presidente (Obama) deve dizer à nação que estamos em guerra
e que devemos imediatamente converter nossas fábricas de carros em
indústrias de transporte coletivo e veículos que usem energia
alternativa. Em 1942, depois de alguns meses, a GM interrompeu sua
produção de automóveis e adaptou suas linhas de montagem para
construir aviões, tanques e metralhadoras. Esta conversão não levou
muito tempo. Todos apoiaram. E os nazistas foram derrotados.

Estamos agora em um tipo diferente de guerra – uma guerra que nós
travamos contra o ecossistema, conduzida pelos nossos líderes
corporativos. Essa guerra tem duas frentes. Uma está em Detroit. Os
produtos das fábricas da GM, Ford e Chrysler constituem hoje
verdadeiras armas de destruição em massa, responsáveis pelas mudanças
climáticas e pelo derretimento da calota polar.

As coisas que chamamos de “carros” podem ser divertidas de dirigir,
mas se assemelham a adagas espetadas no coração da Mãe Natureza.
Continuar a construir essas “coisas” irá levar à ruína a nossa espécie
e boa parte do planeta.

A outra frente desta guerra está sendo bancada pela indústria do
petróleo contra você e eu. Eles estão comprometidos a extrair todo o
petróleo localizado debaixo da terra. Eles sabem que estão “chupando
até o caroço”. E como os madeireiros que ficaram milionários no começo
do século 20, eles não estão nem aí para as futuras gerações.

Os barões do petróleo não estão contando ao público o que sabem ser
verdade: que temos apenas mais algumas décadas de petróleo no planeta.
À medida que esse dia se aproxima, é bom estar preparado para o
surgimento de pessoas dispostas a matar e serem mortas por um litro de
gasolina.

Agora que o Presidente Obama tem o controle da GM, deve imediatamente
converter suas fábricas para novos e necessários usos.

2. Não coloque mais US$30 bilhões nos cofres da GM para que ela
continue a fabricar carros. Em vez disso, use este dinheiro para
manter a força de trabalho empregada, assim eles poderão começar a
construir os meios de transporte do século XXI.

3. Anuncie que teremos trens-bala cruzando o país em cinco anos. O
Japão está celebrando o 45o aniversário do seu primeiro trem bala este
ano. Agora eles já têm dezenas. A velocidade média: 265km/h. Média de
atrasos nos trens: 30 segundos. Eles já têm esses trens há quase 5
décadas e nós não temos sequer um! O fato de já existir tecnologia
capaz de nos transportar de Nova Iorque até Los Angeles em 17 horas de
trem e que esta tecnologia não tenha sido usada é algo criminoso.
Vamos contratar os desempregados para construir linhas de trem por
todo o país. De Chicago até Detroit em menos de 2 horas. De Miami a
Washington em menos de 7 horas. Denver a Dallas em 5h30. Isso pode ser
feito agora.

4. Comece um programa para instalar linhas de bondes (veículos leves
sobre trilhos) em todas as nossas cidades de tamanho médio. Construa
esses trens nas fábricas da GM. E contrate mão-de-obra local para
instalar e manter esse sistema funcionando.

5. Para as pessoas nas áreas rurais não servidas pelas linhas de
bonde, faça com que as fábricas da GM construam ônibus energeticamente
eficientes e limpos.

6. Por enquanto, algumas destas fábricas podem produzir carros
híbridos ou elétricos (e suas baterias). Levará algum tempo para que
as pessoas se acostumem às novas formas de se transportar, então se
ainda teremos automóveis, que eles sejam melhores do que os atuais.
Podemos começar a construir tudo isso nos próximos meses (não acredite
em quem lhe disser que a adaptação das fábricas levará alguns anos –
isso não é verdade)

7. Transforme algumas das fábricas abandonadas da GM em espaços para
moinhos de vento, painéis solares e outras formas de energia
alternativa. Precisamos de milhares de painéis solares imediatamente.
E temos mão-de-obra capacitada a construí-los.

8. Dê incentivos fiscais àqueles que usem carros híbridos, ônibus ou
trens. Também incentive os que convertem suas casas para usar energia
alternativa.

9. Para ajudar a financiar este projeto, coloque US$ 2,00 de imposto
em cada galão de gasolina. Isso irá fazer com que mais e mais pessoas
convertam seus carros para modelos mais econômicos ou passem a usar as
novas linhas de bondes que os antigos fabricantes de automóveis irão
construir.

Bom, esse é um começo. Mas por favor, não salve a General Motors, já
que uma versão reduzida da companhia não fará nada a não ser construir
mais Chevys ou Cadillacs. Isso não é uma solução de longo prazo.

Cem anos atrás, os fundadores da General Motors convenceram o mundo a
desistir dos cavalos e carroças por uma nova forma de locomoção. Agora
é hora de dizermos adeus ao motor a combustão. Parece que ele nos
serviu bem durante algum tempo. Nós aproveitamos restaurantes
drive-thru. Nós fizemos sexo no banco da frente – e no de trás também.
Nós assistimos filmes em cinemas drive-in, fomos à corridas de Nascar
ao redor do país e vimos o Oceano Pacífico pela primeira vez através
da janela de um carro na Highway 1. E agora isso chegou ao fim. É um
novo dia e um novo século. O Presidente – e os sindicatos dos
trabalhadores da indústria automobilística – devem aproveitar esse
momento para fazer uma bela limonada com este limão amargo e triste.

Ontem, a último sobrevivente do Titanic morreu. Ela escapou da morte
certa naquela noite e viveu por mais 97 anos.
Nós podemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as “Flint –
Michigans” deste país. 60% da General Motors é nossa. E eu acho que
nós podemos fazer um trabalho melhor.

Yours,
Michael Moore
MMFlint@aol.com
MichaelMoore.com

4 de junho de 2009 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS, Saber e fazer, VISÃO PROFUNDA | , , , , | Deixe um comentário

REFLEXÕES SOBRE OS MOVIMENTOS “AMBIENTALISTAS”, DE “LIBERTAÇÃO ANIMAL” E “VEGANOS” 1 SOB A ÓTICA DO CONCEITO DE “NATUREZA” EM TEMPOS DE CAPITALISMO


Dennis Zagha Bluwol*

dennis_zb@yahoo.com.br

“Por que é que o sofrimento dos animais me comove tanto?
Porque fazem parte da mesma comunidade a que pertenço,
da mesma forma que meus próprios semelhantes. ”

Émile Zola

O objetivo deste texto é refletir sobre como a postura e os objetivos dos movimentos ambientalistas e vegetarianos / veganos devem ser alterados pelo aprofundamento de discussões teóricas que deveriam estar no centro de suas preocupações.

Para isto, discutirei qual o conceito de “natureza” vigente em nossa sociedade, como esses movimentos o estão reproduzindo, e porque isto deve ser mudado para que se possa perceber quais são, de fato, os alvos que devem ser atingidos nestas importantes lutas.

O Conceito de Natureza como forma de compreender a realidade

Poucas vezes se vê em nossa sociedade o pensamento de que muito do que não caminha do melhor modo possível para a maioria das pessoas pode advir de questões de cunho conceitual, de discussões teóricas que, em sua dimensão prática, ajudam a moldar o mundo como é.

Um exemplo de grande importância é o que nossa atual sociedade reconhece como natureza. Vejamos então algumas questões para se iniciar a reflexão sobre este tema.

Cada pessoa, dependendo de como vive, possui com a terra, e, portanto, com a Terra, certo tipo de relação e identificação, como nos mostra Carvalho: “Por exemplo, se para um empresário de mineração natureza é fonte de matérias-primas de onde extrai a mercadoria com a qual obterá lucros, já para o camponês, natureza é meio de sobrevivência, ou, de outro lado, se para o especulador de terras natureza é investimento imobiliário, já para os índios é um espaço de vida que não se vende nem se compra.”.

Vemos então que o que chamamos de “natureza” é algo socialmente, historicamente e geograficamente constituído. Assim, existe uma visão do que seja natureza que se tornou a mais usada nas sociedades ocidentais atuais: a de que “natureza” é algo externo ao homem.

Um grande passo na direção de uma mudança nas relações sociais (e, portanto, ambientais) existentes é a percepção de que o homem é também natureza, assim como o que ele produz. A natureza não pode ser entendida simplesmente como o lugar onde os homens moram e tiram as coisas para seu sustento, visão esta muito disseminada como senso-comum, e que é um motivo central no avanço das degradações ambientais postas.

Humanidade e natureza são na verdade uma coisa só. Podemos compreender então que quando um homem explora outro homem, está explorando uma parte da natureza. Provavelmente, estará também explorando o resto dela, ou seja, tudo é explorado. Hoje isso se dá em nome da acumulação capitalista, como veremos em breve.

Portanto, essa compartimentação da natureza, não só entre homem-natureza, mas entre todos os seus elementos, que são vistos separadamente, como matérias-primas cuja finalidade é servir à produção de bens, é algo desenvolvido através da história e das visões de mundo de cada sociedade. Gonçalves nos mostra que “toda sociedade, toda cultura cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja natureza.”.

Sobre isso, Carvalho diz: “a natureza sequer teria sido reconhecida enquanto alteridade (…) distinta da dos homens, se as relações sociais não tivessem conduzido historicamente a esta separação entre o ´mundo natural` e o ´mundo social`“.

A visão de que o resto da natureza é inferior aos humanos e que é nosso direito (e mesmo nosso dever, em alguns casos) usá-la como quisermos pode ser facilmente e constantemente encontrada em tradições muito presentes até os dias atuais, como a tradição grega, principalmente de linha aristotélica e a tradição judaico-cristã, tanto no Velho, como no Novo Testamento. Essas duas tradições acabaram se misturando e seus ecos se fazem fortemente presente em todas as sociedades ocidentais. Porém, a visão compartimentada de mundo, como colocada acima, foi claramente posta como corrente de pensamento a partir de Descartes e seus seguidores, justificando assim certa visão de mundo que viria a ser dominante em praticamente todo o planeta, principalmente no ocidente, sendo seguida ainda hoje, por muitos, como a visão verdadeira de mundo. Em seu livro Discurso Sobre o Método, Descartes chega a dizer que aprendendo sobre a natureza e sua força “poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza”.

A filosofia cartesiana enquanto modo de se compreender o mundo baseado em uma visão mecanicista da natureza foi altamente adequada para o crescimento da burguesia mercantil, por ter sido a natureza dessacralizada. Ou seja, por ter sido tirada a visão sagrada (Católica) de mundo existente durante o Feudalismo, foi possível passar a explorar a natureza de um modo muito mais agressivo, sem culpas ou preocupações de cunho metafísico, pois uma moralidade baseada no temor a um deus que poderia se enervar com certos tipos de agressão à sua criação não mais era um grande problema para a emergente burguesia. Podia-se, então, compartimentar a natureza, esquartejá-la, pois era algo morto, não mais habitado por deuses. A natureza virou matéria-prima, os animais viraram máquinas.

O século XIX reforçou a visão cartesiana de mundo, pois foi o momento do nascimento das disciplinas científicas como conhecemos hoje. Com a idéia de que “natural” e “social” são instâncias diametralmente diferentes da realidade, são criadas as ciências ditas naturais e as ciências ditas sociais, que aparentemente, assim como postas para a sociedade pelos acadêmicos devotos desta falsa divisão, são ciências que atuam em campos totalmente diferentes, e deste modo, a idéia de natureza como algo compartimentado e separado da humanidade foi altamente reforçada. Assim, disseminado como senso-comum, o conceito parece algo estático, indiscutível. A simples idéia de que o que “todos” chamam de “natureza” pode ser outra coisa que não aquela que “todos” chamam aparentemente desde sempre, parece ridícula e sem interesse para muitos.

Muito se diz hoje, principalmente por movimentos ambientalistas, que o homem está destruindo a natureza. Porém, não se diz qual homem está destruindo a natureza, nem o que se está chamando de natureza. Com certeza não é o índio nem o camponês clássico (não ligado ao sistema capitalista) que estão destruindo a terra onde vivem e retiram o que é necessário para suas sobrevivências. Quem destrói o seu meio ambiente é um certo homem sob uma certa cultura, que gera um certo conceito de natureza, que na prática é a própria relação do homem com o resto da natureza. No mundo ocidental moderno essa relação pode ser entendida como o próprio modo de produção capitalista.

Este modo de produção tende a separar cada vez mais o homem dos locais onde se poderia retirar os elementos básicos para sua sobrevivência, principalmente no que se refere à sua alimentação. Deste modo, estes homens não terão outra escolha a não ser estarem subordinados ao capital, pois não tendo como retirar diretamente da terra o necessário para o seu sustento, faz-se necessário comprar os alimentos, roupas e tudo mais no mercado. Para comprar é necessário possuir dinheiro. Para ter dinheiro necessita-se de emprego. Com gente necessitando de emprego para comer, o burguês pode explorá-los. Com gente sendo explorada, produzem-se mercadorias que são postas no mercado para que essas mesmas pessoas, impossibilitadas de ter acesso direto a estes produtos, possam obtê-los através de sua compra. Com isso gera-se um ciclo de acumulação de capital.

Portanto, a questão central nas discussões sobre impactos causados ao meio-ambiente não pode ficar simplesmente no consagrado “o homem é mal e destrói a natureza”. Há que se aprofundar esta discussão. O fato é que o modo de produção a nós imposto, o chamado Capitalismo, necessita imprescindivelmente, para seu funcionamento, da exploração da natureza, sendo natureza não só árvores, animais não humanos, solos, águas, etc., mas também os humanos e suas sociedades. Tudo é explorado em nome da produção de mais-valia como meio de acumular capital.

Sobre os Movimentos de Proteção do Meio-Ambiente

Hoje, com tantos movimentos ambientalistas ativos, ainda continuamos com os problemas ambientais se agravando cada vez mais. Isso se dá, logicamente, pela força das empresas, porém também pelo caráter destes movimentos, pois a maioria não tem uma visão mais centrada sobre o funcionamento do mundo moderno, ou seja, uma reflexão conceitual que permita compreender a realidade em suas relações mais profundas, no que podemos considerar por essência da realidade, num nível de análise diferente da aparência mais superficial.

Tais movimentos, se pretendem realmente uma transformação no modo como a humanidade se porta em relação ao resto da natureza, necessitam primeiramente acabar com esta divisão homem-natureza, que, como vimos, é uma falsa visão que serve como meio de alienar o ser humano do que necessita para sua sobrevivência, além de ser uma alienação de cunho ideológico que não permite que se perceba com facilidade o modo como a exploração da natureza ocorre com a finalidade de servir àqueles cujo interesse é o acumulo de capital.

Além disso, cabe aos movimentos ambientalistas sempre lembrar que quando se briga por algo específico não se deve esquecer o todo que gerou este problema. Por exemplo, quando se briga pelo massacre de algum animal, não se deve esquecer que quem o está matando pode estar fazendo isto por um salário, pela sua necessidade de dinheiro para sobreviver, portanto há alguém o explorando e há todo um sistema de exploração montado que explora a natureza com um todo, seja um animal como uma baleia ou uma tartaruga, seja o trabalhador que é obrigado a matar estes animais para ter sua remuneração que trocará por comida, roupas e outras necessidades básicas. Não estou querendo justificar a caça a estes animais, fato que repudio e que creio que se deva sempre lutar contra, porém, estou mostrando que a briga é muito mais ampla. Brigar contra os navios baleeiros é válido desde que se brigue também contra todo o modo de produção que gera a caça de animais em nome da acumulação de capital sem se preocupar com os danos causados ao meio ambiente ou à vida destes seres sensíveis: o modo de produção capitalista.

Neste momento cabe fazer uma pequena ressalva: é lógico que em modos de produção não capitalistas também pode haver massacre de animais e destruição ambiental, mas o que tento mostrar é que enquanto houver Capitalismo, cujo objetivo é o acúmulo de capital baseado na exploração da natureza (inclui-se aí o ser humano enquanto força de trabalho), não será possível uma real transformação no modo como a humanidade se relaciona com “ela”. O Capitalismo não irá deixar de explorá-la, pois a exploração é a espinha dorsal do Capitalismo.

Grande parte dos movimentos ecológicos atuais não é contra o modo capitalista de produção, e muitos são até parceiros, tendo apoio da chamada iniciativa privada, ou seja, as empresas capitalistas. Isso se dá pois a principal luta deles é a conservação dos recursos que os humanos destroem e que servem de matéria-prima para estas indústrias. Natureza para estes movimentos e indústrias é apenas uma fornecedora de matéria-prima e, portanto, deve-se conservá-la. Com isso, cria-se algo meio obscuro, pois no discurso destes movimentos (geralmente na forma de ONGs) a natureza é destruída por um homem despersonalizado e abstrato. Não se percebe (ou ao menos não se revela) que o que existe são homens concretos que são também explorados pelo mesmo interesse que se explora o meio ambiente. Esses movimentos acabam por apoiar o modo de produção capitalista (por isto são apoiados por ele), pois fazem com que seja conservada a matéria-prima para as indústrias e ao mesmo tempo são escondidas as relações cruéis contra os próprios homens, não se protestando contra o modo de produção como um todo. Esses movimentos podem ser chamados de “Capitalismo verde”, e são, infelizmente, a esmagadora maioria dos movimentos ditos “ambientalistas” ou “ecológicos” que possuem acesso ao grande público, principalmente no que diz respeito à veiculação de suas idéias nas grandes mídias, com o apoio financeiro da iniciativa privada ou do próprio governo estatal que, logicamente, também possui seus interesses capitalistas na exploração de seu território e de seus habitantes.

Sobre a “Libertação Animal” e o Veganismo

Colocadas estas primeiras reflexões, posso prosseguir no sentido da discussão das questões sobre o modo como os animais são encarados em nosso mundo.

Algumas reflexões muito bem feitas já foram realizadas sobre este tema, destacando-se, para falar do que já foi traduzido para o Português, as obras de Peter Singer e Tom Regan, além dos brasileiros, como, por exemplo, a professora Sônia T. Felipe. Como reflexão no campo da ética estas obras nos apresentam argumentos suficientes para se ir contra qualquer tipo de exploração dos animais, dada a senciência (capacidade de sentir e ter consciência de seus sofrimentos) destes seres, dados os impactos ao meio-ambiente resultantes da indústria da carne e outros produtos de origem animal, aos fatores ligados à questão da fome no mundo, entre outros pontos de análise. O objetivo aqui não é repetir o que já foi escrito nestas obras, mas colocar algumas das discussões do que hoje é conhecido como movimento de libertação animal dentro da proposta deste artigo, numa tentativa de aprofundar a discussão em certos sentidos e apontar para possíveis resoluções para estas problemáticas.

Novamente coloco a questão do conceito de natureza para abordar esta questão. Animais são parte na natureza. Todos os animais. Por exemplo, o ser humano e as relações que possui com o resto do mundo. O fato de existir conflitos entre os animais nos mostra que um conceito de natureza que a vê como algo bucólico, paradisíaco e distante é algo irreal. A grande questão não é apontar ou propagar uma idéia fictícia de que natureza é sinônimo de paz total. O conflito é parte da natureza. A questão, portanto, é que animais não humanos podem ter conflitos entre si, mas só o animal humano é capaz de explorar premeditadamente, intensivamente e imoralmente outros animais, o que faz com que essa exploração seja muito pior do que a feita por parasitas de outras espécies sem capacidade de discernimento, abstração e reflexão. Só o ser humano pode tornar seu mundo mais (ou menos) pacífico, sabendo lidar com os conflitos e evitando os desnecessários.

Em linhas gerais, a relação que o ser humano atual possui com outras espécies animais pode ser definida em uma palavra: especismo. Ou seja, há um preconceito colocado em nossa sociedade que diz que outras espécies animais são menos dignas de respeito e bons tratos do que nossa espécie. É o mesmo discurso do racismo, do sexismo, ou de outros preconceitos de caráter excludente de uma parte dos seres por razões não explicáveis ou não defensáveis moralmente.

Assim, animais não humanos podem ser engaiolados, enjaulados, acorrentados, treinados, debicados, isolados, paralisados, testados, pendurados… e assassinados. Mortos por um motivo mesquinho e não mais justificável no mundo atual: para que seu cadáver seja devorado. Não é mais possível justificar essa barbárie, pois hoje sabemos que nutricionalmente o consumo de carne, leite e ovos não apresenta nenhum diferencial no que se refere aos nutrientes necessários ao ser humano em relação ao que se pode obter através de fontes vegetais, a não ser aspectos negativos, como o excesso de gorduras. Ambientalmente a indústria da carne é repulsiva, por usar e poluir uma quantidade gigantesca de água, por destruir áreas gigantescas de florestas para a criação de pastos ou de grãos para a alimentação do gado, entre outros inúmeros impactos.

Se alimentar ou usar elementos de origem animal em qualquer tipo de produto é uma opção infeliz e injustificável. Como esta discussão se encaixa no eixo central deste artigo?

Para que essa repulsiva indústria exista nos moldes que existe hoje, não podemos enxergar-nos como parte desta mesma natureza que é presa, torturada e abatida nas fazendas-fábricas e seus matadouros. Não podemos nos sentir parte desta situação assustadora. Aí, mais uma vez se encaixa a proposta do conceito do que é a natureza posto para nós como uma verdade indiscutível, como analisado no início deste artigo. O ser humano não se vê como um animal, pois considera que os animais sejam aqueles seres inferiores e sem consciência que estão aqui para nos servir. Até bem pouco tempo atrás se mudássemos a palavra “animais” por “negros” na última sentença, ela seria lida com a maior tranqüilidade, sem causar espanto em grande parte da população não negra.

Novamente voltamos à questão: toda a natureza é explorada do modo como é hoje por um certo objetivo: a acumulação de capital, que é o objetivo do capitalismo.

O que é uma vaca para um burguês? É uma máquina onde se coloca grãos e cereais baratos e abundantes (que poderiam alimentar um enorme número de pessoas a baixos custos) e se retira, ao final do processo (que é cada vez mais rápido, dado o uso de hormônios e antibióticos), carne com um valor comercial bem maior do que o dos grãos e cereais, que será vendida para uma parcela da população mundial que possui dinheiro para isto e está disposta a trocá-lo por este pequeno e injustificável prazer degustativo momentâneo.

A vaca, a galinha, os porcos, enfim, todos os animais são apenas matéria-prima para indústrias altamente lucrativas para seus donos. Donos estes que não se importam nem o mínimo com o sofrimento destes animais, com as horríveis condições de vida a que são submetidos (leia “Libertação Animal”), com os impactos ambientais calamitosos provocados por esta indústria, com o número dezenas de vezes maior de pessoas que poderiam ser muito bem alimentadas com as fontes vegetais de nutrientes se não as déssemos para o gado, com a grande área de floresta que seria poupada do desmatamento para a criação de pastos e grãos, com a imensa quantidade de água que é desperdiçada ou poluída com dejetos de animais, antibióticos, hormônios e outros produtos químicos, etc.

Aliás, é bom colocar que é claro que a problemática da fome no mundo pode (e deve) ser observada sob o prisma da concentração de renda e da concentração fundiária existente em vários locais do mundo, inclusive, de forma violenta, no Brasil. É impossível desconsiderar isto. Porém, é bom ressaltar que a questão não é só esta. Suponha que um dia estas concentrações terminem e todos possam ter acesso ao que quiserem, pelo menos para se alimentar, a mais básica das necessidades. Se todos, considerando a população mundial atual que cresce vertiginosamente, desejarem pratos à base de carne, leite e ovos, de acordo com pesquisas recentes, precisaríamos de pelo menos quatro planetas como a Terra para criar todos esses animais. E este número varia para mais, se considerarmos outros luxos de classes mais abastadas e consumidoras de produtos industrializados em excesso. Ou seja, mesmo que se quisesse, seria impossível alimentar toda a população do mundo com carne, ovos ou leite. Não há condições pelos próprios limites do planeta. Portanto, é totalmente contraditório se defender uma posição contra o modo de produção exploratório hoje existente e continuar incentivando o consumo de animais. Não é possível existir uma sociedade mais justa e igualitária no mundo se não se mudar o mais essencial dos atos, que deveria ser praticado por todos algumas vezes ao dia: se alimentar.

Temos então o Capitalismo, com seu conceito alienante de natureza, explorando a tudo e a todos em nome da acumulação de capital. A exploração de animais não humanos é um destes tipos de exploração. Como qualquer tipo de exploração, principalmente de seres sensíveis, é injustificável e imoral, assim como a exploração do ser humano transformado em força de trabalho nas mãos destes mesmos carrascos.

Libertar os animais desta terrível situação só pode ocorrer simultaneamente à libertação do homem desta mesma situação exploratória, assim como a libertação de todo o planeta. Uma das mudanças essenciais para se chegar a isto é alterarmos o que consideramos ser nossa natureza e nos vermos novamente integrados ao resto do mundo, agindo em prol do bem comum e da melhoria da qualidade de vida de todos.

A burguesia, com o auxílio de uma de suas mais execráveis armas, o marketing, embute nas pessoas cada vez mais necessidades superficiais que se tornam centrais na vida de um número altíssimo de pessoas, mesmo naqueles que não podem pagar por elas, mas que não por isso não possuirão o desejo de um dia possuir algo daquilo que o protagonista acéfalo da novela adquiriu, ou do que o comercial que associa mulheres semi-nuas e juventude desmiolada ao sucesso e bem estar nada sutilmente lhe ordena comprar. Tais necessidades fazem a produção de mercadorias crescer vertiginosamente e continuamente, a acumulação de capital ser cada vez maior e, portanto, a exploração da natureza alcançar patamares cada vez mais insustentáveis: mais exploração de matéria-prima, de trabalhadores ou de animais usados como ingredientes ou como cobaias em inúmeros e sofridos testes em seus organismos a cada novo ingrediente ou fórmula desenvolvida. Cada novo produto lançado é uma nova facada contra nós mesmos. É um atentado contra a natureza. É um prolongamento do holocausto imposto aos animais.

Ai das indústrias se as pessoas tivessem o discernimento de que elas são também natureza e de que não podem ser vistas como matéria-prima. Sim, as pessoas são vistas no mesmo nível de importância que um pedaço de bauxita pelos burgueses. Apenas têm nomes diferentes no processo exploratório: um é matéria-prima, o outro é força-de-trabalho. A única diferença é que este último precisa comer, e portanto precisa de seu ínfimo salário, não que isso seja um grande problema, já que o salário é uma pequenina parte valor do que essa força-de-trabalho cria com aquela matéria-prima. O resto é lucro. E se há lucro, é com a natureza que o burguês vai se preocupar? Que se explore mineral, vegetal, animal não humano ou animal humano. É assim que o modo de produção que estamos inclusos opera.

Se quisermos caminhar na direção de um movimento de “libertação animal” que possua alguma chance de sucesso, não podemos deixar estas questões de lado. Libertar os animais de sua condição de vida atual sem pensar em libertar também os humanos e todo o resto da natureza das reais forças por trás das explorações, é um trabalho fadado ao fracasso. Não podemos querer um capitalismo vegano, como parece ser o caso em muitos discursos. Capitalismo e veganismo, como tentei mostrar durante este texto, ainda que com outras palavras, são práticas contraditórias. Não podemos deixar que o capitalismo se aproprie do vegetarianismo como se este fosse apenas um nicho de mercado. Não somos um nicho de mercado. Devemos ser uma opção real de luta contra qualquer exploração, no caminho de um futuro mais justo, igualitário e, para todos os seres, prazeroso.

ver a bibliografia e indicações bibliográficas na pg original do texto:

http://www.sentiens.net/pensata/PA_ACD_dennis_0009.html

*Dennis é Geógrafo, Vegano e autor de Escritos Éticos e Picaréticos – ago/2009.

18 de outubro de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , , , , , | Deixe um comentário

A natureza não é muda

Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do Equador

Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do Equador
24/04/2008

Eduardo Galeano

O mundo pinta naturezas mortas, sucumbem os bosques naturais, derretem os pólos, o ar torna-se irrespirável e a água imprestável, plastificam-se as flores e a comida, e o céu e a terra ficam completamente loucos.

E, enquanto tudo isto acontece, um país latino-americano, o Equador, está discutindo uma nova Constituição. E nessa Constituição abre-se a possibilidade de reconhecer, pela primeira vez na história universal, os direitos da natureza.

A natureza tem muito a dizer, e já vai sendo hora de que nós, seus filhos, paremos de nos fingir de surdos. E talvez até Deus escute o chamado que soa saindo deste país andino, e acrescente o décimo primeiro mandamento, que ele esqueceu nas instruções que nos deu lá do monte Sinai: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”.


Um objeto que quer ser sujeito

Durante milhares de anos, quase todo o mundo teve direito de não ter direitos.

Nos fatos, não são poucos os que continuam sem direitos, mas pelo menos se reconhece, agora, o direito a tê-los; e isso é bastante mais do que um gesto de caridade dos senhores do mundo para consolo dos seus servos.

E a natureza? De certo modo, pode-se dizer que os direitos humanos abrangem a natureza, porque ela não é um cartão postal para ser olhado desde fora; mas bem sabe a natureza que até as melhores leis humanas tratam-na como objeto de propriedade, e nunca como sujeito de direito.

Reduzida a uma mera fonte de recursos naturais e bons negócios, ela pode ser legalmente maltratada, e até exterminada, sem que suas queixas sejam escutadas e sem que as normas jurídicas impeçam a impunidade dos criminosos. No máximo, no melhor dos casos, são as vítimas humanas que podem exigir uma indenização mais ou menos simbólica, e isso sempre depois que o mal já foi feito, mas as leis não evitam nem detêm os atentados contra a terra, a água ou o ar.

Parece estranho, não é? Isto de que a natureza tenha direitos… Uma loucura. Como se a natureza fosse pessoa! Em compensação, parece muito normal que as grandes empresas dos Estados Unidos desfrutem de direitos humanos. Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos, modelo da justiça universal, estendeu os direitos humanos às corporações privadas. A lei reconheceu para elas os mesmos direitos das pessoas: direito à vida, à livre expressão, à privacidade e a todo o resto, como se as empresas respirassem. Mais de 120 anos já se passaram e assim continua sendo. Ninguém fica estranhado com isso.


Gritos e sussurros

Nada há de estranho, nem de anormal, o projeto que quer incorporar os direitos da natureza à nova Constituição do Equador.

Este país sofreu numerosas devastações ao longo da sua história. Para citar apenas um exemplo, durante mais de um quarto de século, até 1992, a empresa petroleira Texaco vomitou impunemente 18 bilhões de galões de veneno sobre terras, rios e pessoas. Uma vez cumprida esta obra de beneficência na Amazônia equatoriana, a empresa nascida no Texas celebrou seu casamento com a Standard Oil. Nessa época, a Standard Oil, de Rockefeller, havia passado a se chamar Chevron e era dirigida por Condoleezza Rice. Depois, um oleoduto transportou Condoleezza até a Casa Branca, enquanto a família Chevron-Texaco continuava contaminando o mundo.

Mas as feridas abertas no corpo do Equador pela Texaco e outras empresas não são a única fonte de inspiração desta grande novidade jurídica que se tenta levar adiante. Além disso, e não é o menos importante, a reivindicação da natureza faz parte de um processo de recuperação das mais antigas tradições do Equador e de toda a América. Visa a que o Estado reconheça e garanta o direito de manter e regenerar os ciclos vitais naturais, e não é por acaso que a Assembléia Constituinte começou por identificar seus objetivos de renascimento nacional com o ideal de vida do sumak kausai. Isso significa, em língua quechua, vida harmoniosa: harmonia entre nós e harmonia com a natureza, que nos gera, nos alimenta e nos abriga e que tem vida própria, e valores próprios, para além de nós.

Essas tradições continuam miraculosamente vivas, apesar da pesada herança do racismo, que no Equador, como em toda a América, continua mutilando a realidade e a memória. E não são patrimônio apenas da sua numerosa população indígena, que soube perpetuá-las ao longo de cinco séculos de proibição e desprezo. Pertencem a todo o país, e ao mundo inteiro, estas vozes do passado que ajudam a adivinhar outro futuro possível.

Desde que a espada e a cruz desembarcaram em terras americanas, a conquista européia castigou a adoração da natureza, que era pecado de idolatria, com penas de açoite, forca ou fogo. A comunhão entre a natureza e o povo, costume pagão, foi abolida em nome de Deus e depois em nome da civilização. Em toda a América, e no mundo, continuamos pagando as conseqüências desse divorcio obrigatório.


Eduardo Galeano é escritor uruguaio, autor de “A Escola do Mundo ao Avesso”

Publicado originalmente no semanário Brecha, do Uruguai.

26 de abril de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , | Deixe um comentário

ARGENTINA: Porque agricultores ecológicos não estão nas ruas do país nesse momento

um tango latinoamericanotexto e foto: Amanda**

da redação local!!

A maioria dos argentinos não conhece a Ecovila Gaia, de 21 pessoas que está localizada a 3 horas da Capital Federal, no município de Navarro, há onze anos plantando seu próprio alimento e desenvolvendo uma série de experiências riquíssimas em tecnologia apropriada. No primeiro dia de tempestade dessa semana, por acaso, eu estive lá, ou pelo menos perto, tentando chegar na comunidade. E não consegui chegar simplesmente porque não havia energia elétrica em Navarro; assim que, não tive como tirar dinheiro do caixa eletrônico para pagar um táxi para chegar a ecovila, porque já era noite e não tinha nem pra comprar pilhas pra lanterna… Ainda, o táxi me deixaria a dois quilometros da entrada, porque a estrada de terra estava que era só barro e o automóvel não poderia passar; se fosse um cavalo, chegaria claro. Graças ao meu erro primário de viajante ou ao lapso do vício citadino de esperar encontrar um caixa eletrônico pra resolver os problemas básicos, não pude chegar ao único lugar que certamente havia luz elétrica e banho quente em toda a região.

Os moradores de Gaia são também agricultores. Argentinos. E estão ali, sem sair de casa em plena crise dos +14% que abala os bairros chiques de Recoleta e Palermo em Buenos Aires, e as estradas de toda Argentinas nas últimas duas semanas. Gente de toda parte do mundo vem pra Argentina pra conhecer a “Asociación Gaia”. Eu vim do Brasil, e quando estava lá, comigo estavam: Erin, estudante de arquitetura dos Estados Unidos; Ben, professor de inglês da Inglaterra; Donail, sociólogo da Irlanda; Carlos, profissional de turismo do Equador; Luis, líder comunitário do Peru; Salina, estudante de geografia da Alemanha; Pablo, artista e educador espanhol, que vive no Brasil; Luis, médico de Santiago del Estero; Cristina, ex-diretora de escola de Buenos Aires; Oliver, australiano, estudante, filho de um dos mais renomados ecologistas do mundo; além de educadores de Buenos Aires e algumas visitas ilustres de argentinos que figuram nas telas de televisão e cinema do país e do mundo, seguramente mais conhecidos do que a própria comunidade Gaia; todos aprendendo, trocando e desenvolvendo juntos novas formas de viver sustentavelmente, usando a inspiração de experiências do mundo inteiro, assim como essa, de Gaia.

Está bom que os donos da soja visitem as cozinhas de suas casas para buscar ou saiam a comprar panelas de inox para fazer barulho nas ruas das cidades e nas estradas, fazendo piquete, estremecendo a opinião pública e a pequena burguesia que foi passar férias no interior do país. Assim o tema vem à tona. Orgulhei-me de ouvir a presidenta falar. Não porque era mulher. Tampouco porque sou sua partidária, pois que pra mim, era uma ilustre desconhecida até alguns meses atrás. Na verdade, até hoje à noite, quando parei para escutá-la de verdade. E gostei. Ela tocou no ponto fundamental. Pra minha opinião, ainda foi bastante suave; espero que só tenha sido para ir aos poucos tocando na questão, porque se colocar tudo agora vai chocar até quem a apóia. Mas há de se dizer, uma nação não pode centralizar sua economia num único produto. A soja vem ganhando espaço nos solos dos países subdesenvolvidos, solos esses que, de subdesenvolvidos não tinham nada, eram solos extremamente aptos, pela dádiva da mãe natureza, a produzir toda sorte de alimentos, a gerar soberania alimentar aos povos das nações que passam fome e produzem soja. Uma coisa não está desassociada da outra. Claro que existem fatores históricos para justificar as crises ambientais e sociais que passa imensa parcela da humanidade atualmente, mas, quando se fala “fome” ou “aquecimento global”, pode se ouvir ecoando ao fundo: “SOJA”.

A soja, sementinha essa que faz brilhar os olhos dos donos dos mais modernos tratores e que recebe monumentos em sua homenagem em municípios no interior da América Latina, como símbolo de desenvolvimento, é tão importante para nossa sobrevivência como o é o BIGMAC. A lógica é absolutamente a mesma. Está por trás de tudo que se diz de bem sobre a soja algumas, ou melhor, muitas corporações e grandes empresários interessadíssimos em associar à imagem de uma vida saudável ou mais feliz a esse grão, de origem asiática, que nunca antes na história fez parte de nenhuma diéta alimentar inteligente. Já é sabido que os orientais passaram a consumir a soja somente depois de descobrir como fermentá-la. Aí veio o tofu, o missô, o shoyu. Antes disso, ela é indigesta para nosso organismo. E aí vem a pergunta inocente: você, que defende os fazendeiros que estão pedindo subsídios ou benefícios para a produção de soja: come soja???

Se ficar sem graça e disser que não, te ajudamos: imensa porcentagem da soja que se produz no submundo…; quer dizer, nos países submetidos…; quer dizer, subdesenvolvidos… ! é destinada à alimentação animal. Você consome carne comum? Então consome soja e, consequentemente está contribuindo duas vezes para o desequilíbrio ecológico e social do planeta.

Outra imensa porcentagem – não tenho a menor idéia de quanto, mas você pode imaginar – é destinada aos químicos que figuram nas embalagens dos alimentos industrializados que você consome; sim, esses que, vira e mexe aparecem como cancerígenos em algumas notinhas alarmistas de revistas do “viver bem” ou do jornal da tarde.

Você pode comer quanta carne você quiser na sua vida, não vamos entrar nesse mérito aqui, mas, consumindo carne nesse sistema de produção que vigora nos nossos dias atuais você está, nada menos que contribuindo diretamente para o aumento do aquecimento global através de devastação de milhares de florestas para a criação de pasto e, para a produção de soja. Ou seja, contribui duas vezes para a devastação florestal, contaminação dos rios, interferência na circulação das águas, poluição e, consequentemente esse tal de aquecimento global que provoca tempestades fora de época, frio no verão, calor no inverno, que te torna estressado ao ir ao trabalho, te faz carregar mais casacos do que precisa, faz teu corpo enlouquecer tentando se adaptar aos “novos ciclos da natureza”. E, quando senta no sofá no domingo para ver o noticiário te faz suspirar por um minuto pensando que futuro terá seus filhos nesse planeta louco, violento com cara de fim de mundo… Assim como, tanto a produção de gado como a produção de soja estão historicamente ligadas à concentração de terras, à exploração de trabalhadores rurais, à migração de camponeses rumo ao desemprego e miséria nas cidades.

Tenho a sensação de que tudo isso é tão óbvio que me sinto uma tonta repetindo.

Mas, vamos lá: se você cria o seu próprio gado e galinha ou consome de algúem que os alimenta de maneira natural, faz pequenos estábulos reflorestados para manter a qualidade do solo e a diversidade na alimentação dos seus animais, usa remédios naturais para tratá-los das poucas efermidades que os afetam e ainda, não concentra terras, não explora trabalhadores, não joga os resíduos da sua produção nos rios… você tem alguns pontos a menos no tema “impactos ambientais e sociais” e pode matar e comer seus bichinhos sossegado.

Ainda há que se tocar no tema dos transgênicos. Mais uma vez: escutei gente revolucionária dizer que não tem opinião sobre os transgênicos, porque os testes ainda não comprovaram se fazem bem ou mal para a saúde. Então, diga-me: você acredita que o mundo pode ser melhor do que é hoje e muitas vezes acredita que está fazendo algo pra isso, então o que me diz de consumir ou ao menos permitir que se produza no solo do seu país _ onde poderia-se estar produzindo hortaliças, verduras, legumes, frutas e florestas _ um “alimento” inventado, criado em laboratório, que tampouco se tem a certeza de que não faz mal à saúde, mas já se sabe que pode atingir plantações e florestas a quilômetros de distância, infertilizando sementes criolas e nativas, contribuindo para a extinção de espécies cultivadas a milhares de anos!

Isso tudo enquanto ignoramos as inúmeras denúncias de organismos competentes sobre as fraudes na divulgação dos resultados dos estudos de soja transgênica da Monsanto, onde as cobaias apresentaram metamorfoses cancerígenas por consumir os tais grãos. Muito bem, tem gente que não acredita nessas denúncias, tem gente que tampouco acredita que o ser humano já pisou na lua. Então fique com o tema: se os estudos não são seguros, por que comer soja? (Ainda que em alguns países não se pode confiar na certificação “livre de transgênicos” – então, por que correr o risco?) Eu tenho a impressão de que as pessoas não sabem que comem soja!! Porque se a soja viesse aos seus pratos como vem o feijão, elas íam pensar antes se é algo confiável ou não. Antigamente se espalhava o feijão na mesa e se escolhia os bonitos e os empedrados que não serviam pra comer, mesmo depois de cozido. Imagina se alguns desses fossem azuis, reluzente, tipo chernobyl… você comeria? É assim a soja transgênica: algo criado em laboratório, capaz de causar putrefamento nos órgãos do seu corpo. Não é? Quem me prova o contrário? Quem te prova?? Veja algumas notícias e bom apetite!

E o que tem que ver se a soja é transgênica ou não com os 14%?! Os fazendeiros estão brigando para produzir um alimento de, no mínimo, péssima qualidade pra você. E ainda, que, antes de ser pra você, ele é pra exportação, vai pra outro país, passa por um processamento, volta pro seu país em forma de ração de gado, alimenta o gado que erodiu a terra, contaminou o rio, devastou a floresta, produziu CO2 e, vai morrer num matadouro em péssimas condições de trabalho humano, e, então vai pra sua parrilla de domingo. Nesse percurso, o seu almoço acumulou porcentagens e porcentagens de lucros ou, como se diz em castelhano, ganancias, muita gente saiu ganhando, enquanto outras tantas saíram explorados.

Quem está reclamando do aumento da retenção em relação à produção da soja é sobretudo, o grande fazendeiro, dono da terra; terra essa que, em geral foi conseguida por coerção, ou herança do colonizador. E o pequeno produtor que se mantém em sua terra, está dentro do sistema por falta de opção-visão e vende sua produção ao grande fazendeiro ou aos atravessadores e depende deles para ter suas ganancitas. Essa relação é tão velha quanto à roca da minha avó! O grande fazendeiro que faz “parcerias” com o pequeno, o empresário ou o atravessador é quem fixa o preço da compra do produto do pequeno produtor; claro, também tem influência do mercado externo, pois estamos falando de grandes produções para exportação, mas nisso, o grande está unido, o pequeno não; se ele quer, vende, se não quer, fica com uma sobreprodução que vai apodrecer sem escoar. E, ele precisa vender porque precisa comprar sementes e veneno para a próxima safra, senão tem que começar a se desfazer de seus bens, começando pela própria terra, meio ancestral de sobrevivência. Isso é o que podemos chamar de vulnerabilidade social.

Tudo isso até agora te parece óbvio e natural? Então vamos tentar olhá-los como se não fosse. Se a exploração é inerente à história das relações de trabalho no campo – e em qualquer lugar – sem entrar nesse mérito que, por mim deixo claro que é inerente à história e não ao ser humano, o que quero apontar é que, a maneira de produzir não o é, não é autóctona, tradicional, originária, o povo do campo não viveu sempre assim, até que chegasse o sistema inerente à história: a exploração e, agora, exploração capitalista, moderna e já bem antiga. Cada vez que o noticiário na Argentina diz que “o campo está protestando contra os 14% a mais de retenção à exportação da soja” me arrepia, porque “o campo” é outra coisa, o campo é múltiplo, são os camponeses*, os indígenas, os agricultores familiares, os povos tradicionais. Quem está reivindicando é, senão a cidade, uma extensão do urbano, são os donos do poder, das tomadas de decisões, os que influenciam na economia do país e do continente. Disseram-me que aqui na Argentina não é bem assim. Os grandes fazendeiros já perderam o poder. A corrente peronista, que não é socialista nem “de direita” e nem neoliberal, distribui melhor o poder. Salve. Mas economicamente e historicamente, os caras têm força. Haja vista a indignação de um monte de gente que não entende nada e menos ainda “como a presidenta tem coragem de aumentar tanto assim os impostos… isso é uma vergonha!”

Bom, vamos ao que pode ser e muitas vezes já é. A presidenta, bonita, feminina, e bem competente defendeu que a soja tem que dar espaço à produção de milho e de carne. Em outras palavras, diversificar a produção. Até aí, ela está corretíssima. Qualquer nação, assim como qualquer pequeno negócio, que se limita à produzir um único produto está fadado à falência, porque torna-se totalmente vunerável às condições de escoamento e aceitação desse produto nacional ou internacionalmente. E, quanto maior a escala, pior, porque quanto mais longe do consumidor final está o produtor, menos condições ele tem de avaliar e conduzir os rumos da sua produção. Qualquer “Básico 1” de marketing sabe disso: você tem que conhecer o seu cliente. (Há uma outra premissa que é: você tem que criar o seu cliente, ou seja, doutrinar as pessoas para que consumam o seu produto – e é isso que se tem feito com a soja, e com o BigMac!!) Cristina acerta quando levanta esse argumento. Mas ainda está sendo bem pouco progressista, pra não dizer eficaz, em não ir além do milho e da carne. O milho e a carne ainda estão presos ao mesmo sistema de produção da soja, então, de certa forma, a maior parte dos argumentos contrários à soja servem também ao milho e à carne. O produtor continua preso ao ciclo: comprar sementes, comprar veneno, vender ao preço que lhe fixam para comprar mais sementes, mais veneno para poder comprar sua comida, seu eletrodoméstico, mandar seu filho pra escola; igual para o gado alimentado somente com ração, tratado com antibióticos e hormônios etc. Isso, o pequeno agricultor ou o agricultor familiar que depende de vender sua produção aos grandes. O grande, por sua vez, vai contratar trabalhadores cada vez em situações pioeres de trabalho, porque cresce o desemprego e o trabalho é desvalorizado. Ainda, para produzir o grão ou a carne, cada vez mais vai precisar de mais terra, porque a terra cansa, se exaure… Esse é o sistema de monopólio da terra e de monocultivo.

Parece metáfora? Sim, o ser humano já pisou na lua! A terra tem nutrientes e ela precisa se retroalimentar daquilo que produz.

Por isso chegamos num outro ponto crucial: BIODIVERSIDADE. Diversificar a produção não é só porque é bonitinho, porque os abraçadores de árvores dizem que temos que diminuir a emissão de CO2 no ar, temos que fixar carbono, temos que melhorar a paisagem e reconstituir as nossas florestas. Já não bastasse isso tudo, que não é mais tema de revistas de gente bonita que pratica esporte, mas sim tema de interesse de qualquer ser vivo que pretende continuar existindo enquanto espécie sobre nesse planetinha. A questão da biodiversidade é também, e principalmente, uma questão de sustentabilidade, isto é, de condições de manter permanência da produção, de proporcionar que o campo continue produzindo alimentos e de que o agricultor, seja ele grande ou pequeno, continue sendo agricultor. De que, sobretudo, tenha alimento para a nação. E como é de gosto de socialistas e capitalistas: que tenha trabalho para todos. A biodiversidade é uma vantagem econômica, porque, se um produto está em crise, o outro pode gerar renda. Ecologicamente acontece o mesmo: se uma planta pode estar enfraquecida, a outra, está crescendo e acumulando nutrientes e igualmente, elas vão se ajudando mutuamente.

Nada disso é segredo, e por que não se fala nos noticiários?!?!? Aqui talvez me escutem como uma idealista com mais argumentos textuais do que numéricos, e isso é até proposital, porque os números se manipulam e o texto que aqui se apresenta se parar para pensar um minuto verá, é lógica pura, totalmente racional. A emoção vem da indignação de saber que ainda se ignora tudo isso.

A presidenta falou, mas não foi capaz de aprofundar: tem que se mudar o sistema de produção!! Diversificar. Diversificar em espécies. Sair do ciclo coercivo da compra de sementes-compra de veneno e acúmulo de terra e de meios de produção. A matéria prima pode ser processada ali, pelo produtor ou por uma cooperativa. Os produtores têm que ter domínio sobre suas próprias sementes e meios de produção. Basta.

Diversificar em produtos, para atender os mais diversos mercados. E mudar o sistema, significa o sistema inteiro: a produção tem que ser destinada ao mercado interno primeiro! Não que as fronteiras devam ser fechadas. A globalização é linda para troca de informações, de idéias, de tecnologias, de produtos também. Mas a base da economia tem que girar entre os vizinhos mais próximos, isso diminui consideravelmente a vulnerabilidade.

A revolução é: tiramos a soja, recuperamos o solo, plantamos alimentos para nós mesmos e para nossos vizinhos de maneira ecológica, produzimos nossas próprias sementes, tiramos leite das nossas próprias vacas, processamos nosso próprio doce, destinamos as hortaliças pro mercado mais próximo, economizamos em transporte, diminuimos os custos, abaixamos os preços, garantimos a qualidade, tiramos o veneno, boicotamos as grandes corporações. É tão simples. Como você não pensou nisso antes? A ecovila Gaia pensou. Por isso não saiu em piquete nessa semana. Igual a ela, existem centenas em todo mundo, e existem milhares de produtores fortalecendo essa corrente: do agroecológico, do sustentável. SUSTENTÁVEL. Essa palavra é mais complexa do que figura por aí de maneira tão banal. Se estiver associada a uma grande empresa, a qualquer monopólio, a qualquer empresa que vise lucros exorbitantes, esqueça, nada que ver! Escolha melhor o que consome, porque o sistema todo é sustentado pelo seu movimento de escolha! E quando ouvir alguém bater lata, preste muita atenção antes de entrar no ritmo ou rechaçar. A coisa toda é mais complexa. Embora seja óbvia.

* Sobre o conceito de campo é curioso dizer ainda que, aqui, pelo pouco tempo de contato pude perceber que campesino que em português traduziríamos como camponês, não é um termo usado para o pequeno agricultor ou agricultor familiar. Ao menos nos periódicos diz-se “chacareros” e “campesinos” como sinonimos. Campesino pode ser o grande fazendeiro, por isso ainda, é muito difícil para o leigo entender de que “campo” os jornais estão falando, estão todos apresentados como uma mesma realidade, sob um mesmo conceito, o que não está certo, já que, sequer a paisagem produzida é a mesma. Vale lembrar na obra de José de Souza Martins a sugestão de que camponês seja o melhor termo a se referir ao trabalhador do campo; um termo político que nos remete à luta de classes e à construção da identidade desse ser social.

Amanda Barral. paulistana, vivendo na Argentina, pensando em portunhol. aprendendo permacultura, amando a geografia, sendo educadora; intentando…

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21 de março de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , , , | Deixe um comentário

Estar pronto para este mundo!

Para ser grande, sê intero

Nada teu exagera ou exclui

Sê todo em cada coisa

Põe quanto és

No mínimo que fazes

Assim em cada lago a lua toda brilha

Porque alta vive

Reicardo Reis

por Amanda**

Quando falamos de sustentabilidade, evocamos acima de tudo uma nova condição humana diante do mundo; uma condição de responsabilidade e consciência. Para transformar, é preciso atuar como se fôssemos únicos, desenvolvendo em nós mesmos energia física, conhecimento e amor, necessários para agir, discernir e persistir.

Hoje em dia estão acessíveis a todos nós muitas técnicas de autocura, relaxamento e expansão da consciência. É muito importante que práticas com esses propósitos façam parte do nosso cotidiano. Incorporar a mudança em si mesmo é mais do que conhecer conceitos e realizar transformações no ambiente. É estar pronto e pronta para dar o exemplo.

A saúde, hoje, mais do que nunca é revolucionária. A mente sã é capaz de reconhecer quando um ser humano está sendo explorado e de reagir quando necessário. Só em equilíbrio somos capazes de conceber o amor em toda sua divindade. Ainda, alimentação correta, pensamento positivo e movimentos saudáveis deveriam ser-nos ensinados nas escolas como base para toda existência. Essas são as melhores ferramentas para que não precisemos ser reféns do sistema médico alienante; que nos aliena da condição de sermos responsáveis pela própria saúde e, tantas vezes nos submetendo a condições desumanas de tratamento e falta de cuidados.

A imensa maioria das doenças, senão todas, se originam em causas psicossomáticas. Existem milhares de estudos acessíveis nas sessões de psicologia, medicina “alternativa”, qualidade de vida… a respeito das causas sutis das doenças; estresse, medo, raiva, e tantas emoções destrutivas, quando manifestadas em nossa mente, ocupam imediatamente um lugar em nosso corpo. Muitos de nós, se acostumam com uma mente doente sem nem mesmo perceber que está prejudicando o próprio corpo e ofuscando o brilho da vida.

Objetivamente, técnicas de massagem são eficazes para despertar nossos sentidos, potencializar nossa capacidade de perceber o mundo e a nós mesmos. Isso se dá através do relaxamento profundo, que podemos praticar sozinhos cotidianamente, alcançando estágios profundos da nossa consciência, mas também através da relação com a/o terapeuta, com quem se estabelece a troca curativa.

Compartilhar, descobrir novas técnicas, trocar com amigos, realizar práticas coletivas são deliciosas formas de começar a experimentar essa “nova” forma de encontro. Assim, como seres humanos devemos nos capacitar continuamente para realizar esse presente que é a VIDA.

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** Amanda realiza atendimento de massagem bioenergética;  pratica meditação tântrica inspirada em Sri Sri Anandamurti, e acredita que cada um de nós pode (deve!) fazer um mundo melhor a cada dia!! – amandabarral@yahoo.com.br

Esse texto foi originalmente escrito para o Gibi Semearte do Paulinho Semearte para a sessão sobre terapias alternativas na Casa dos Holons, em 2007 – São Paulo..

13 de março de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , , , , , , , | 1 Comentário

Retirada Sostenible – Leonardo Boff

A los grandes medios de comunicación les pasó desapercibido el impresionante discurso que el presidente de Bolivia, Evo Morales, pronunció el pasado octubre en las Naciones Unidas. Habló menos como jefe de Estado y más como un líder indígena cuya visión de la Tierra y de los problemas ambientales está en clara confrontación con el sistema mundial imperante. Denuncia sin rodeos: «la enfermedad de la Tierra se llama modelo de desarrollo capitalista», que permite la perversidad de que «tres familias posean ingresos superiores al PIB de los 48 países más pobres», y que hace que «Estados Unidos y Europa consuman en promedio 8,4 veces más que la media mundial». E hizo esta sabia reflexión de graves consecuencias: «ante esta situación, nosotros, los pueblos indígenas y los habitantes humildes y honestos de este Planeta, creemos que ha llegado la hora de hacer un alto para reencontrarnos con nuestras raíces, con el respeto a la Madre Tierra; con la Pachamama, como la llamamos en los Andes».

La alarma ecológica provocada por el calentamiento global ya iniciado debe producir este primer efecto: que hagamos una parada para repensar el camino hasta ahora andado y para crear nuevos modelos que nos permitan continuar juntos y vivos en este pequeño planeta. Tenemos que reencontrar nuestras raíces terrenales. Urge que reconquistemos la conciencia de que hombre viene de humus (tierra fecunda) y que Adán viene de Adamah (tierra fértil). Somos Tierra que siente, piensa, ama y venera. Y ahora, debido a un trayecto civilizatorio de alto riesgo, montado sobre la explotación ilimitada de todos los recursos de la Tierra y de la voluntad desenfrenada de dominación sobre la naturaleza y sobre los otros, hemos llegado a un punto crítico en el que la supervivencia humana corre peligro.No podemos continuar tal como vamos o iremos al encuentro de nuestra propia destrucción. Todavía recientemente Gorbachev observaba: «necesitamos un nuevo modelo civilizatorio porque el actual llegó a su fin y agotó sus posibilidades; tenemos que llegar a un consenso sobre nuevos valores o en 30 ó 40 años puede que la Tierra exista sin nosotros». ¿Conseguiremos un consenso mínimo cuando sabemos que el capitalismo y la ecología obedecen a dos lógicas contrarias? El primero se preocupa de cómo ganar más dominando la naturaleza y buscando el beneficio económico, y la ecología de cómo producir y vivir en armonía con la naturaleza y con todos los seres. Hay aquí una incompatibilidad de base. O el capitalismo se niega a sí mismo y crea así espacio para el modo sostenible de vivir o nos llevará fatalmente al destino de los dinosaurios.

Pero confiamos, como Evo Morales, que en su discurso enfatizó: «tengo total confianza en el ser humano, en su capacidad de razonar, de aprender con sus errores, de recuperar sus raíces y de cambiar para forjar un mundo justo, diverso, inclusivo, equilibrado y armónico con la naturaleza».

Nos consuela la sentencia del poeta alemán Hölderlin: «Cuando es grande el peligro, grande es también la salvación». Cuando, dentro de unos años, alcancemos el corazón de la crisis y todo esté en juego, entonces valdrá la sabiduría ancestral y del cristianismo de los orígenes: «en caso de extrema necesidad, todo se vuelve común». Capitales, saberes y haberes serán participados por todos para poder salvar a todos. Y nos salvaremos, con la Tierra.

Leonardo Boff es teólogo

Texto em português: http://alainet.org/active/20773

13 de março de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , , , , , | Deixe um comentário

   

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