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Nova lei de comunicação argentina compra briga contra monopólios

Aprovada por ampla maioria, a “Nueva Ley de Medios” cria uma comissão bicameral de controle, um Conselho Federal de Comunicação Audiovisual e a figura do Defensor Público de consumidores de serviços audiovisuais. Entre outras coisas, a nova legislação estabelece que uma mesma empresa não possa possuir canais de TV aberta e a cabo, além de reduzir de 24 para dez o limite das concessões de rádio e TV em mãos de um mesmo proprietário.

Clarissa Pont

Fotos: Eduardo Seidl

Durante as últimas semanas, os debates em Buenos Aires giram em torno da nova lei de comunicação proposta pelo governo de Cristina Kirchner: esteve em audiências públicas lotadas, nos jornais, televisões e nas ruas. Conhecida pelos portenhos como “Nueva Ley de Medios”, o projeto quer regulamentar o setor e, apesar das críticas de opositores, que temem um maior controle do Estado, na última quinta-feira (17), após quase 14 horas de debate, o projeto governista obteve 146 votos, contra três votos contrários e três abstenções. A medida ainda passa pelo Senado, possivelmente em outubro. Entre outros pontos, a nova lei cria uma comissão bicameral de controle, um Conselho Federal de Comunicação Audiovisual e a figura do Defensor Público de consumidores de serviços audiovisuais.

O grande debate que a possibilidade de mudança na legislação vigente desde a ditadura militar (1976-1983) gerou no país pode ser avaliado como a primeira vitória da proposta do governo. Jornais estamparam o tema durante toda semana que antecedeu a votação. No dominical Miradas al Sur, de 6 de setembro último, a manchete “Papeles manchados” abria a matéria de capa que explicava “por qué Clarín defiende la ley de la dictadura”e trazia fotografia onde aparecem diretores do diário argentino brindando com ninguém menos que Jorge Videla, em agosto de 1978. Miradas al Surtambém denunciava na mesma edição que os outdoors espalhados pela cidade que estampavam a foto foram cobertos por cartazes de propagandas falsas. Enquanto isso, a presidente Cristina Kirchner anunciava em entrevistas a certeza de que a nova lei reforçará a democracia ao dar maior acesso aos canais de transmissão para pequenos grupos e ONGs, além de restringir o número de concessões que possam ser outorgadas a uma só empresa. 

No mesmo domingo, o diário Clarín trazia matéria intitulada “El formidable enriquecimiento de los amigos del poder K”, denunciando a multiplicação de capital do casal Kirchner e de aliados. Durante toda semana seguinte, o diário reuniu munição contra a lei e o governo. Segundo o diário, todos que defendem um pluralismo ideológico devem estar preocupados com a decisão da Câmara dos Deputados argentina. Segundo o líder da bancada do governo, deputado Agustín Rossi, a lei “é profundamente antimonopolista, propicia uma maior quantidade de vozes com a mesma potência. Propicia uma sociedade mais democrática, com maior quantidade de opções”. Mas, ao contrário do que diz a oposição, “não coloca a destruição da grande empresa, mas a convivência entre a grande empresa e as empresas pequenas”. 

Os críticos do chamado “poder K” denunciam que a mudança na lei reflete apenas a briga comprada pela presidente e o seu marido e antecessor, Néstor Kirchner, contra o Grupo Clarín, principalmente pela postura crítica de seus veículos na disputa do governo com o campo.

O projeto, com 157 artigos, realmente aumenta a regulação dos meios de comunicação audiovisuais por parte do Estado. Entre outras coisas, estabelece que uma mesma empresa não possa possuir canais de TV aberta e a cabo, além de reduzir de 24 para dez o limite das concessões de rádio e TV em mãos de um mesmo proprietário. Cria uma entidade de supervisão das comunicações, com a presença da sociedade civil e do governo. A recente revogação de uma cláusula que permitia que empresas telefônicas atuassem no mercado de TV a cabo assegurou o apoio de parlamentares de esquerda ao novo projeto. De acordo com a presidente, a nova redação da lei afastará os temores de que as telefônicas criem novos monopólios. A oposição tentou adiar a votação para dezembro, quando assumem os deputados e senadores eleitos no final de junho. 

Para Macri, nova lei demonstra “fascismo” do governo
As críticas à lei não partem apenas do Grupo Clarín. Para o prefeito de Buenos Aires e ex-dirigente do Boca Juniors, Mauricio Macri, as mudanças na lei de radiodifusão representam “mais um retrocesso institucional dos Kirchners” e são a prova do “fascismo” do governo. Macri, que se tornou a grande voz contra os Kirschner pela direita, avalia que a proposta restringe a liberdade de imprensa e torna as empresas do setor vulneráveis a pressões do governo. A oposição se reuniu para afirmar que fará de tudo para barrar as mudanças. Agustín Rossi descarta a possibilidade de anulação ou revisão. “A oposição não poderá anular a lei, seja com este Parlamento ou com o novo”, disse. O governo agora prepara seus aliados para a votação no Senado, as estimativas no âmbito parlamentar indicam que o governo contaria com 38 dos 72 votos no Senado.

“A lei possui muitos aspectos positivos”, diz Esquivel
Para o argentino Pérez Esquivel, Nobel da Paz de 1980, o mecanismo de concentração e contaminação da informação não está apenas na Argentina, mas existe em escala mundial. “Pretende-se confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa, que não são sinônimos. A Nova Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual causa revolta e preocupação principalmente àqueles que não querem mudança alguma e pretendem continuar com a lei vigente, imposta durante a ditadura militar”, avalia Esquivel, que em 1974 coordenou a fundação do Servicio Paz y Justicia en América Latina (Serpaj). Ele sublinha que a todos os governos que se sucederam no país desde 1983 até agora, faltou vontade política para solucionar e democratizar os meios de comunicação. Ao contrário, grifa Esquivel, Menem apenas impulsionou políticas de entrega do patrimônio público, dos recursos do país aos grandes capitais estrangeiros e permitiu que o monopólio dos meios de comunicação seguisse em poucas mãos. 

“A lei possui muitos aspectos positivos, mas é necessário o debate para que se avance em algumas propostas. Isso, para conquistar a democratização de imprensa como fundamento dos direitos humanos, que a liberdade de informar e ser informado seja maior que os interesses dos monopólios. A nova lei deve abrir espaços de liberdade de expressão e valores que nos permitam construir um novo amanhecer da pátria. Uma palavra, uma participação e um pensamento esquecido que devemos recuperar. A dominação não começa pelo econômico, começa pelo cultural”, resume Esquivel. 

Proyecto Sur apóia a proposta, mas mantém ressalvas
“Queremos discutir esta norma que é a lei das leis na democracia e uma grande política de Estado”, explicou o deputado nacional eleito e cineasta Pino Solanas durante coletiva de imprensa que também teve a presença do deputado Cláudio Lozano. A força política encabeçada por Solanas, chamada de Proyecto Sur, representa a crítica pela esquerda ao governo e à proposta de lei. “No Proyecto Sur confluem tanto o campo cultural como o social, atores que participaram durante as últimas duas décadas no debate sobre a necessidade da democratização do sistema de meios na Argentina”, explicou Lozano. “Para todos nós, existe um conceito central que é o tema de entender o espaço do audiovisual como um patrimônio do conjunto da sociedade que deve ser administrado pelo Estado com um controle público adequado”, completou. 

A revisão de licenças a cada dois anos, a convivência entre cooperativas de serviços públicos e distribuidoras de TV a cabo no interior do país e a participação das telefônicas na comunicação são os principais pontos de conflito entre os Kirschner e Solanas, que considera pontos positivos na nova lei, mas apresentou modificações no projeto. “O Proyecto Sur não chegou a este debate nem por uma circunstancial confrontação com o Grupo Clarín, nem tampouco como parte daqueles que a cada vez que se planteia a necessidade de regular o sistema, colocam isso como se fosse autoristarismo”, comparou Solanas. O diretor de “Sur” é uma das grandes pedras no sapato do casal Kirchner e possível candidato à prefeitura de Buenos Aires ou até a presidência da república nas próximas eleições.



Extraído de: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16158&boletim_id=593&componente_id=9988


22 de setembro de 2009 Publicado por | LINKS: O ESTADO DO MUNDO - NOTÍCIAS | , , , | Deixe um comentário

ARGENTINA: Porque agricultores ecológicos não estão nas ruas do país nesse momento

um tango latinoamericanotexto e foto: Amanda**

da redação local!!

A maioria dos argentinos não conhece a Ecovila Gaia, de 21 pessoas que está localizada a 3 horas da Capital Federal, no município de Navarro, há onze anos plantando seu próprio alimento e desenvolvendo uma série de experiências riquíssimas em tecnologia apropriada. No primeiro dia de tempestade dessa semana, por acaso, eu estive lá, ou pelo menos perto, tentando chegar na comunidade. E não consegui chegar simplesmente porque não havia energia elétrica em Navarro; assim que, não tive como tirar dinheiro do caixa eletrônico para pagar um táxi para chegar a ecovila, porque já era noite e não tinha nem pra comprar pilhas pra lanterna… Ainda, o táxi me deixaria a dois quilometros da entrada, porque a estrada de terra estava que era só barro e o automóvel não poderia passar; se fosse um cavalo, chegaria claro. Graças ao meu erro primário de viajante ou ao lapso do vício citadino de esperar encontrar um caixa eletrônico pra resolver os problemas básicos, não pude chegar ao único lugar que certamente havia luz elétrica e banho quente em toda a região.

Os moradores de Gaia são também agricultores. Argentinos. E estão ali, sem sair de casa em plena crise dos +14% que abala os bairros chiques de Recoleta e Palermo em Buenos Aires, e as estradas de toda Argentinas nas últimas duas semanas. Gente de toda parte do mundo vem pra Argentina pra conhecer a “Asociación Gaia”. Eu vim do Brasil, e quando estava lá, comigo estavam: Erin, estudante de arquitetura dos Estados Unidos; Ben, professor de inglês da Inglaterra; Donail, sociólogo da Irlanda; Carlos, profissional de turismo do Equador; Luis, líder comunitário do Peru; Salina, estudante de geografia da Alemanha; Pablo, artista e educador espanhol, que vive no Brasil; Luis, médico de Santiago del Estero; Cristina, ex-diretora de escola de Buenos Aires; Oliver, australiano, estudante, filho de um dos mais renomados ecologistas do mundo; além de educadores de Buenos Aires e algumas visitas ilustres de argentinos que figuram nas telas de televisão e cinema do país e do mundo, seguramente mais conhecidos do que a própria comunidade Gaia; todos aprendendo, trocando e desenvolvendo juntos novas formas de viver sustentavelmente, usando a inspiração de experiências do mundo inteiro, assim como essa, de Gaia.

Está bom que os donos da soja visitem as cozinhas de suas casas para buscar ou saiam a comprar panelas de inox para fazer barulho nas ruas das cidades e nas estradas, fazendo piquete, estremecendo a opinião pública e a pequena burguesia que foi passar férias no interior do país. Assim o tema vem à tona. Orgulhei-me de ouvir a presidenta falar. Não porque era mulher. Tampouco porque sou sua partidária, pois que pra mim, era uma ilustre desconhecida até alguns meses atrás. Na verdade, até hoje à noite, quando parei para escutá-la de verdade. E gostei. Ela tocou no ponto fundamental. Pra minha opinião, ainda foi bastante suave; espero que só tenha sido para ir aos poucos tocando na questão, porque se colocar tudo agora vai chocar até quem a apóia. Mas há de se dizer, uma nação não pode centralizar sua economia num único produto. A soja vem ganhando espaço nos solos dos países subdesenvolvidos, solos esses que, de subdesenvolvidos não tinham nada, eram solos extremamente aptos, pela dádiva da mãe natureza, a produzir toda sorte de alimentos, a gerar soberania alimentar aos povos das nações que passam fome e produzem soja. Uma coisa não está desassociada da outra. Claro que existem fatores históricos para justificar as crises ambientais e sociais que passa imensa parcela da humanidade atualmente, mas, quando se fala “fome” ou “aquecimento global”, pode se ouvir ecoando ao fundo: “SOJA”.

A soja, sementinha essa que faz brilhar os olhos dos donos dos mais modernos tratores e que recebe monumentos em sua homenagem em municípios no interior da América Latina, como símbolo de desenvolvimento, é tão importante para nossa sobrevivência como o é o BIGMAC. A lógica é absolutamente a mesma. Está por trás de tudo que se diz de bem sobre a soja algumas, ou melhor, muitas corporações e grandes empresários interessadíssimos em associar à imagem de uma vida saudável ou mais feliz a esse grão, de origem asiática, que nunca antes na história fez parte de nenhuma diéta alimentar inteligente. Já é sabido que os orientais passaram a consumir a soja somente depois de descobrir como fermentá-la. Aí veio o tofu, o missô, o shoyu. Antes disso, ela é indigesta para nosso organismo. E aí vem a pergunta inocente: você, que defende os fazendeiros que estão pedindo subsídios ou benefícios para a produção de soja: come soja???

Se ficar sem graça e disser que não, te ajudamos: imensa porcentagem da soja que se produz no submundo…; quer dizer, nos países submetidos…; quer dizer, subdesenvolvidos… ! é destinada à alimentação animal. Você consome carne comum? Então consome soja e, consequentemente está contribuindo duas vezes para o desequilíbrio ecológico e social do planeta.

Outra imensa porcentagem – não tenho a menor idéia de quanto, mas você pode imaginar – é destinada aos químicos que figuram nas embalagens dos alimentos industrializados que você consome; sim, esses que, vira e mexe aparecem como cancerígenos em algumas notinhas alarmistas de revistas do “viver bem” ou do jornal da tarde.

Você pode comer quanta carne você quiser na sua vida, não vamos entrar nesse mérito aqui, mas, consumindo carne nesse sistema de produção que vigora nos nossos dias atuais você está, nada menos que contribuindo diretamente para o aumento do aquecimento global através de devastação de milhares de florestas para a criação de pasto e, para a produção de soja. Ou seja, contribui duas vezes para a devastação florestal, contaminação dos rios, interferência na circulação das águas, poluição e, consequentemente esse tal de aquecimento global que provoca tempestades fora de época, frio no verão, calor no inverno, que te torna estressado ao ir ao trabalho, te faz carregar mais casacos do que precisa, faz teu corpo enlouquecer tentando se adaptar aos “novos ciclos da natureza”. E, quando senta no sofá no domingo para ver o noticiário te faz suspirar por um minuto pensando que futuro terá seus filhos nesse planeta louco, violento com cara de fim de mundo… Assim como, tanto a produção de gado como a produção de soja estão historicamente ligadas à concentração de terras, à exploração de trabalhadores rurais, à migração de camponeses rumo ao desemprego e miséria nas cidades.

Tenho a sensação de que tudo isso é tão óbvio que me sinto uma tonta repetindo.

Mas, vamos lá: se você cria o seu próprio gado e galinha ou consome de algúem que os alimenta de maneira natural, faz pequenos estábulos reflorestados para manter a qualidade do solo e a diversidade na alimentação dos seus animais, usa remédios naturais para tratá-los das poucas efermidades que os afetam e ainda, não concentra terras, não explora trabalhadores, não joga os resíduos da sua produção nos rios… você tem alguns pontos a menos no tema “impactos ambientais e sociais” e pode matar e comer seus bichinhos sossegado.

Ainda há que se tocar no tema dos transgênicos. Mais uma vez: escutei gente revolucionária dizer que não tem opinião sobre os transgênicos, porque os testes ainda não comprovaram se fazem bem ou mal para a saúde. Então, diga-me: você acredita que o mundo pode ser melhor do que é hoje e muitas vezes acredita que está fazendo algo pra isso, então o que me diz de consumir ou ao menos permitir que se produza no solo do seu país _ onde poderia-se estar produzindo hortaliças, verduras, legumes, frutas e florestas _ um “alimento” inventado, criado em laboratório, que tampouco se tem a certeza de que não faz mal à saúde, mas já se sabe que pode atingir plantações e florestas a quilômetros de distância, infertilizando sementes criolas e nativas, contribuindo para a extinção de espécies cultivadas a milhares de anos!

Isso tudo enquanto ignoramos as inúmeras denúncias de organismos competentes sobre as fraudes na divulgação dos resultados dos estudos de soja transgênica da Monsanto, onde as cobaias apresentaram metamorfoses cancerígenas por consumir os tais grãos. Muito bem, tem gente que não acredita nessas denúncias, tem gente que tampouco acredita que o ser humano já pisou na lua. Então fique com o tema: se os estudos não são seguros, por que comer soja? (Ainda que em alguns países não se pode confiar na certificação “livre de transgênicos” – então, por que correr o risco?) Eu tenho a impressão de que as pessoas não sabem que comem soja!! Porque se a soja viesse aos seus pratos como vem o feijão, elas íam pensar antes se é algo confiável ou não. Antigamente se espalhava o feijão na mesa e se escolhia os bonitos e os empedrados que não serviam pra comer, mesmo depois de cozido. Imagina se alguns desses fossem azuis, reluzente, tipo chernobyl… você comeria? É assim a soja transgênica: algo criado em laboratório, capaz de causar putrefamento nos órgãos do seu corpo. Não é? Quem me prova o contrário? Quem te prova?? Veja algumas notícias e bom apetite!

E o que tem que ver se a soja é transgênica ou não com os 14%?! Os fazendeiros estão brigando para produzir um alimento de, no mínimo, péssima qualidade pra você. E ainda, que, antes de ser pra você, ele é pra exportação, vai pra outro país, passa por um processamento, volta pro seu país em forma de ração de gado, alimenta o gado que erodiu a terra, contaminou o rio, devastou a floresta, produziu CO2 e, vai morrer num matadouro em péssimas condições de trabalho humano, e, então vai pra sua parrilla de domingo. Nesse percurso, o seu almoço acumulou porcentagens e porcentagens de lucros ou, como se diz em castelhano, ganancias, muita gente saiu ganhando, enquanto outras tantas saíram explorados.

Quem está reclamando do aumento da retenção em relação à produção da soja é sobretudo, o grande fazendeiro, dono da terra; terra essa que, em geral foi conseguida por coerção, ou herança do colonizador. E o pequeno produtor que se mantém em sua terra, está dentro do sistema por falta de opção-visão e vende sua produção ao grande fazendeiro ou aos atravessadores e depende deles para ter suas ganancitas. Essa relação é tão velha quanto à roca da minha avó! O grande fazendeiro que faz “parcerias” com o pequeno, o empresário ou o atravessador é quem fixa o preço da compra do produto do pequeno produtor; claro, também tem influência do mercado externo, pois estamos falando de grandes produções para exportação, mas nisso, o grande está unido, o pequeno não; se ele quer, vende, se não quer, fica com uma sobreprodução que vai apodrecer sem escoar. E, ele precisa vender porque precisa comprar sementes e veneno para a próxima safra, senão tem que começar a se desfazer de seus bens, começando pela própria terra, meio ancestral de sobrevivência. Isso é o que podemos chamar de vulnerabilidade social.

Tudo isso até agora te parece óbvio e natural? Então vamos tentar olhá-los como se não fosse. Se a exploração é inerente à história das relações de trabalho no campo – e em qualquer lugar – sem entrar nesse mérito que, por mim deixo claro que é inerente à história e não ao ser humano, o que quero apontar é que, a maneira de produzir não o é, não é autóctona, tradicional, originária, o povo do campo não viveu sempre assim, até que chegasse o sistema inerente à história: a exploração e, agora, exploração capitalista, moderna e já bem antiga. Cada vez que o noticiário na Argentina diz que “o campo está protestando contra os 14% a mais de retenção à exportação da soja” me arrepia, porque “o campo” é outra coisa, o campo é múltiplo, são os camponeses*, os indígenas, os agricultores familiares, os povos tradicionais. Quem está reivindicando é, senão a cidade, uma extensão do urbano, são os donos do poder, das tomadas de decisões, os que influenciam na economia do país e do continente. Disseram-me que aqui na Argentina não é bem assim. Os grandes fazendeiros já perderam o poder. A corrente peronista, que não é socialista nem “de direita” e nem neoliberal, distribui melhor o poder. Salve. Mas economicamente e historicamente, os caras têm força. Haja vista a indignação de um monte de gente que não entende nada e menos ainda “como a presidenta tem coragem de aumentar tanto assim os impostos… isso é uma vergonha!”

Bom, vamos ao que pode ser e muitas vezes já é. A presidenta, bonita, feminina, e bem competente defendeu que a soja tem que dar espaço à produção de milho e de carne. Em outras palavras, diversificar a produção. Até aí, ela está corretíssima. Qualquer nação, assim como qualquer pequeno negócio, que se limita à produzir um único produto está fadado à falência, porque torna-se totalmente vunerável às condições de escoamento e aceitação desse produto nacional ou internacionalmente. E, quanto maior a escala, pior, porque quanto mais longe do consumidor final está o produtor, menos condições ele tem de avaliar e conduzir os rumos da sua produção. Qualquer “Básico 1” de marketing sabe disso: você tem que conhecer o seu cliente. (Há uma outra premissa que é: você tem que criar o seu cliente, ou seja, doutrinar as pessoas para que consumam o seu produto – e é isso que se tem feito com a soja, e com o BigMac!!) Cristina acerta quando levanta esse argumento. Mas ainda está sendo bem pouco progressista, pra não dizer eficaz, em não ir além do milho e da carne. O milho e a carne ainda estão presos ao mesmo sistema de produção da soja, então, de certa forma, a maior parte dos argumentos contrários à soja servem também ao milho e à carne. O produtor continua preso ao ciclo: comprar sementes, comprar veneno, vender ao preço que lhe fixam para comprar mais sementes, mais veneno para poder comprar sua comida, seu eletrodoméstico, mandar seu filho pra escola; igual para o gado alimentado somente com ração, tratado com antibióticos e hormônios etc. Isso, o pequeno agricultor ou o agricultor familiar que depende de vender sua produção aos grandes. O grande, por sua vez, vai contratar trabalhadores cada vez em situações pioeres de trabalho, porque cresce o desemprego e o trabalho é desvalorizado. Ainda, para produzir o grão ou a carne, cada vez mais vai precisar de mais terra, porque a terra cansa, se exaure… Esse é o sistema de monopólio da terra e de monocultivo.

Parece metáfora? Sim, o ser humano já pisou na lua! A terra tem nutrientes e ela precisa se retroalimentar daquilo que produz.

Por isso chegamos num outro ponto crucial: BIODIVERSIDADE. Diversificar a produção não é só porque é bonitinho, porque os abraçadores de árvores dizem que temos que diminuir a emissão de CO2 no ar, temos que fixar carbono, temos que melhorar a paisagem e reconstituir as nossas florestas. Já não bastasse isso tudo, que não é mais tema de revistas de gente bonita que pratica esporte, mas sim tema de interesse de qualquer ser vivo que pretende continuar existindo enquanto espécie sobre nesse planetinha. A questão da biodiversidade é também, e principalmente, uma questão de sustentabilidade, isto é, de condições de manter permanência da produção, de proporcionar que o campo continue produzindo alimentos e de que o agricultor, seja ele grande ou pequeno, continue sendo agricultor. De que, sobretudo, tenha alimento para a nação. E como é de gosto de socialistas e capitalistas: que tenha trabalho para todos. A biodiversidade é uma vantagem econômica, porque, se um produto está em crise, o outro pode gerar renda. Ecologicamente acontece o mesmo: se uma planta pode estar enfraquecida, a outra, está crescendo e acumulando nutrientes e igualmente, elas vão se ajudando mutuamente.

Nada disso é segredo, e por que não se fala nos noticiários?!?!? Aqui talvez me escutem como uma idealista com mais argumentos textuais do que numéricos, e isso é até proposital, porque os números se manipulam e o texto que aqui se apresenta se parar para pensar um minuto verá, é lógica pura, totalmente racional. A emoção vem da indignação de saber que ainda se ignora tudo isso.

A presidenta falou, mas não foi capaz de aprofundar: tem que se mudar o sistema de produção!! Diversificar. Diversificar em espécies. Sair do ciclo coercivo da compra de sementes-compra de veneno e acúmulo de terra e de meios de produção. A matéria prima pode ser processada ali, pelo produtor ou por uma cooperativa. Os produtores têm que ter domínio sobre suas próprias sementes e meios de produção. Basta.

Diversificar em produtos, para atender os mais diversos mercados. E mudar o sistema, significa o sistema inteiro: a produção tem que ser destinada ao mercado interno primeiro! Não que as fronteiras devam ser fechadas. A globalização é linda para troca de informações, de idéias, de tecnologias, de produtos também. Mas a base da economia tem que girar entre os vizinhos mais próximos, isso diminui consideravelmente a vulnerabilidade.

A revolução é: tiramos a soja, recuperamos o solo, plantamos alimentos para nós mesmos e para nossos vizinhos de maneira ecológica, produzimos nossas próprias sementes, tiramos leite das nossas próprias vacas, processamos nosso próprio doce, destinamos as hortaliças pro mercado mais próximo, economizamos em transporte, diminuimos os custos, abaixamos os preços, garantimos a qualidade, tiramos o veneno, boicotamos as grandes corporações. É tão simples. Como você não pensou nisso antes? A ecovila Gaia pensou. Por isso não saiu em piquete nessa semana. Igual a ela, existem centenas em todo mundo, e existem milhares de produtores fortalecendo essa corrente: do agroecológico, do sustentável. SUSTENTÁVEL. Essa palavra é mais complexa do que figura por aí de maneira tão banal. Se estiver associada a uma grande empresa, a qualquer monopólio, a qualquer empresa que vise lucros exorbitantes, esqueça, nada que ver! Escolha melhor o que consome, porque o sistema todo é sustentado pelo seu movimento de escolha! E quando ouvir alguém bater lata, preste muita atenção antes de entrar no ritmo ou rechaçar. A coisa toda é mais complexa. Embora seja óbvia.

* Sobre o conceito de campo é curioso dizer ainda que, aqui, pelo pouco tempo de contato pude perceber que campesino que em português traduziríamos como camponês, não é um termo usado para o pequeno agricultor ou agricultor familiar. Ao menos nos periódicos diz-se “chacareros” e “campesinos” como sinonimos. Campesino pode ser o grande fazendeiro, por isso ainda, é muito difícil para o leigo entender de que “campo” os jornais estão falando, estão todos apresentados como uma mesma realidade, sob um mesmo conceito, o que não está certo, já que, sequer a paisagem produzida é a mesma. Vale lembrar na obra de José de Souza Martins a sugestão de que camponês seja o melhor termo a se referir ao trabalhador do campo; um termo político que nos remete à luta de classes e à construção da identidade desse ser social.

Amanda Barral. paulistana, vivendo na Argentina, pensando em portunhol. aprendendo permacultura, amando a geografia, sendo educadora; intentando…

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21 de março de 2008 Publicado por | ARTIGOS ASSINADOS | , , , | Deixe um comentário

   

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