mirando mundo

o mundo… sob um certo olhar – e interação

Conta de bar e Teoria dos Jogos

Por Carlos Eduardo Soares Gonçalves, para o Valor

Nos tempos de faculdade as idas aos bares e restaurantes com grupos de
amigos eram eventos de grande descontração (…) Mas, não raro,
ameaçando o entusiasmo e o clima relaxado, se encontrava o espectro de
uma gorda conta final a ser repartida entre todos no fim da noite

Muitas décadas antes dessas incursões noturnas, matemáticos como John
Von Neumann e o célebre John Nash, em vez de freqüentar bares com seus
colegas de universidade, estavam mais ocupados desenvolvendo uma nova
área da economia denominada Teoria dos Jogos. Um dos conceitos
importantes dessa vertente da economia moderna é a noção de estratégia
dominante. Ela nos ajuda a explicar o inchaço da conta do bar quando é
dividida entre todos na mesma proporção, além das ameaças aos recursos
naturais e a crise financeira na Argentina em 2001.

Na Teoria dos Jogos, é usual postular que, quando os ganhos e perdas
dos indivíduos, em qualquer situação em que haja interação com outras
pessoas, dependem tanto das suas ações como das ações daquelas, cada
um tomará o curso de ação que lhe gerar maiores ganhos líquidos (no
sentido amplo, e não necessariamente financeiro, da palavra)
baseando-se na hipótese de que todos os outros assim também
procederão. Parece simples, mas a idéia de levar em conta ação alheia
na hora de escolher a sua ainda não tinha fincado pé na teoria
econômica de modo sistemático.

Simplificando, no bar com os colegas há dois cursos de ação: cada um
pode escolher o prato mais barato e pedir água como acompanhamento, ou
pede comida cara e bebe cerveja importada. Quando um indivíduo decide
pela primeira opção, ele economiza para todos, que pagarão uma conta
menor no fim da noite. Mas o problema é que, assim fazendo, ele pagará
por essa economia sozinho caso os outros optem pela segunda opção, a
mais cara. Percebendo que ficará com os custos, mas muito
provavelmente não se apropriará dos benefícios de tal decisão, ele
termina optando pelo menu mais “salgado”.

Pedir o menu mais caro é a estratégia dominante na mesa do bar, pois,
dadas as expectativas de cada um sobre o que os outros vão fazer,
pedir o menu mais simples diminui apenas marginalmente o tamanho da
conta. Como ela será dividida em parcelas iguais para todos, a
economia que volta a quem pede água é apenas uma fração de quanto seu
menu é mais barato que os dos outros. Se minha expectativa é de que
outros vão pedir o prato mais caro, pedir o mais barato ajuda muito
pouco a diminuir quanto desembolsarei no fim da noite. E, se minhas
expectativas são de que os outros escolherão o prato mais barato,
posso tranqüilamente escolher o mais caro, pois o fardo financeiro de
tal decisão será dividido com meus pares. Assim, a melhor escolha para
mim é sempre pedir o mais caro. Todos raciocinando de modo similar, o
resultado é uma conta assustadoramente elevada.

A divulgação de que o desmatamento na Amazônia voltou a crescer
recentemente provocou grande bafafá na mídia, protestos dos
ambientalistas e desmentidos de algumas áreas do governo.
Freqüentemente, recursos naturais são explorados de modo predatório
pela mesma razão que produz a conta elevada no bar. Fala-se que quem
explora uma floresta ou outro recurso natural qualquer não se preocupa
em preservá-lo para uso futuro. Condena-se a ambição dos exploradores,
que supostamente leva ao fim da floresta. Mas essa é uma
caracterização imprecisa do problema. Ambição não é algo inerente
apenas a quem corta madeira na floresta pública.

A exploração excessiva das florestas é mais um exemplo de estratégia
dominante. O explorador abusa da derrubada de árvores porque não tem
incentivo nenhum para “poupar” a floresta para o futuro. De novo, ele
escolhe seu curso de ação com base no que espera que os outros
exploradores farão. Cortar menos árvores tem a vantagem de preservar a
floresta para exploração futura, mas se eu economizo e os outros não o
fazem, a floresta se deprecia do mesmo modo e nada ganho com minha
escolha. Se o explorador espera que os outros não economizarão árvores
na derrubada, a melhor coisa é derrubar o máximo possível, pois amanhã
não haverá mais floresta. Se a expectativa é de que os outros cortarão
poucas árvores, ele tampouco terá incentivos para imitá-los, visto
que, se os outros preferem a preservação, seu corte excessivo de
árvores não trará por si só o fim acelerado da floresta.

A única estratégia dominante nesse jogo interativo, no qual a floresta
é de todos e, portanto, de ninguém, é explorar em demasia a floresta.
A bem da verdade, o problema é ainda mais grave, pois a decisão
individual de derrubar árvores e promover queimadas afeta outras
pessoas via maior poluição do ar e erosão do solo. Esse tipo de
“externalidade negativa” – como gostam de dizer os economistas – é
tema para crônica futura.

No começo deste século, nossos “hermanos” da Argentina passaram por
grave crise econômica. Entre outros fatores, a imprudência fiscal das
províncias estava na raiz dos problemas macroeconômicos daquele país.
Por que as províncias gastavam demais? A explicação é similar à
apresentada nos dois casos anteriores.

As províncias gastavam e recorriam ao governo federal para cobrir seus
rombos. Uma atitude mais austera por parte de uma dada província
geraria uma economia para o governo federal. Mas o “sacrifício” em
termos de menos gastos seria então apropriado pelas outras províncias
gastadoras que não procedessem assim. Mais ainda, a economia
individual de uma província não salvaria o governo central da crise
financeira – que é ruim para todas. E, se as outras fossem austeras,
gastar mais à custa do governo federal não aumentaria muito a
probabilidade de catapultar uma crise, graças à economia feita por
aquelas.

Diga-se que sempre há os que eticamente não pedem os pratos mais
caros, são prudentes no corte de madeira movidos pelo respeito à
natureza e não têm a desfaçatez de passar seus pepinos para outras
instâncias de governo. Infelizmente, algumas andorinhas não fazem
verão.

Como, então, evitar contas desnecessariamente altas nos bares, o
desmatamento excessivo e as crises econômicas causadas por gastança
desmedida de unidades de governo subnacionais? Resposta: fazendo que
as ações de cada um não afetem os custos e benefícios dos outros, mas
apenas os próprios. Cartões individuais nos bares e restaurantes,
direitos de propriedade bem definidos nas terras ocupadas e dar às
unidades federativas não somente o direito de gastar, mas também o
fardo de tributar, são as soluções.

Já sabe o leitor por que as pessoas tomam banhos mais demorados em
prédios do que em casas? Na próxima reunião de condomínio leve a
solução econômica desse problema a seu síndico.

Carlos Eduardo Soares Gonçalves é doutor em economia, professor no
departamento de economia da FEA-USP e autor, com Bernardo Guimarães,
do livro “Economia sem Truques”.

13 de setembro de 2008 - Posted by | LINKS: O ESTADO DO MUNDO - NOTÍCIAS

1 Comentário »

  1. COMENTÁRIO DA LOLITA:

    Não discordo, mas faltou dizer uma coisa essencial, no meu entender:

    Se vamos rachar a conta E NÓS SEMPRE RACHAMOS A CONTA!!!
    a decisão tem que ser genuinamente coletiva.

    ECOlogicamente falando, ECOnomicamente falando sempre vem uma conta
    final misturando o ônus futuro de todo o grupo.

    o problema é que o PED raciocina como se só houvesse decisao
    individual, como se só fosse possivel decisao individual. Assim, o que
    está acabando com o planeta e com o mundo do emprego, degradando o
    ambiente, e o ser humano é essa incongruência: DECISÃO INDIVIDUAL E
    CONTA GRUPAL
    Se a conta é grupal a decisão tem que ser grupal!!!

    … de fato, praticamos e conhecemos muito pouco a decisão grupal.
    Enquanto individuos e enquanto coletivos, temos realmente pouquíssima
    ou nenhuma pratica de decisões verdadeiramente grupais. Os processos
    políticos desgraçadamente ainda têm que ser incluídos na categoria
    individual, porque ainda, desgraçadamente, prevalecem interesses
    parciais e não realmente do grupão que paga a conta.

    Mas a decisão coletiva é uma necessidade. Não temos histórico disso,
    nem séries estatísticas, nem teses. Isso não quer dizer que nunca vai
    poder haver. Precisamos urgentemente aprender a resolver realmente
    coletivamente as coisas. Estudar estas decisões coletivas, fazer e
    escrever a História delas. Antes que seja tarde.
    abraço a tod@s
    Lolita

    *sobre cientificidade precisariamos outro email com pelo menos o dobro
    do tamanho

    Comentário por a.barral | 13 de setembro de 2008


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