mirando mundo

o mundo… sob um certo olhar – e interação

Visões femininas sobre o mundo pós-desenvolvido

Por Rosa Alegria*

extraído do site: http://www.perspektiva.com.br/futuro/visoes_femininas.htm

Em março desse ano, visitei o Schumacher College, no sul da Inglaterra, mobilizada pelo tema de um curso que entrou no meu radar de futurista. O programa “Development: what next?” (“Desenvolvimento: o que virá depois?”) fez ressoar em mim a vontade de olhar além de um horizonte tão carregado de nuvens e incertezas. Foram três semanas de intensas visões sobre as possibilidades do pós-desenvolvimento inspiradas por Gustavo Esteva, auto-identificado como intelectual mexicano “desprofissionalizado”, Vandana Shiva, a eco-feminista de todos os tempos e Clare Short, ex-ministra de Desenvolvimento Internacional do governo britânico. De comum entre eles, além da ferocidade das críticas ao sistema econômico, os destaques de um porvir mais feminino e acalentador para os que estão de fora do modelo de desenvolvimento que veio lá de cima e se impôs como o melhor dos mundos para os que estiveram às margens da economia oficial. O programa mexeu comigo, me fez repensar no que ainda restava de promissor nos meus ideais de desenvolvimento. Foi tamanho o impacto da mudança, que acabei reescrevendo uma apresentação que faria na Bélgica (no meio do período do curso), por ocasião da primeira conferência futurista sobre os avanços das mulheres em seu papel como agentes do desenvolvimento. Faço parte do comitê científico que estruturou o programa e as bases metodológicas de um estudo prospectivo que teve inicio na conferência. Centenas de vozes femininas estiveram em coro visualizando um mundo melhor propagado pelos ideais de Millennia 2015, uma conversação sobre o futuro da mulher que aconteceu na Bélgica, de 6 a 8 de março. Iniciei a apresentação questionando que modelo de desenvolvimento que nós, mulheres, estaríamos buscando. Desenvolvimento, como concepção masculina, não deveria ser um caminho escolhido por mulheres. Optar pelo paradigma atual de desenvolvimento significaria perpetuar um sistema decadente. De volta ao Schumacher, retomei o programa. “Todo mundo precisa de uma mudança de visão do mundo que abra espaço para o saber próprio das mulheres” – foi assim que Vandana Shiva concluiu sua passagem pela escola. De lá pra cá, tenho pensado na proximidade construtiva entre o universo feminino, desvalorizado pela lógica do capitalismo, e os novos modelos de desenvolvimento, pautados pela colaboração entre seres, comunidades, cidades e nações. Há muito o que ser reparado e reconstruído pela ótica e pela realidade da mulher. O ônus da devastação ecológica e do crescimento irresponsável se faz refletir com mais força nas mulheres, provedoras de gerações futuras. Não há melhor momento do que esse para vivermos a experiência redentora de um mundo pós-desenvolvido pautado pelos valores femininos. O desenvolvimento do crescimento ilimitado não pode continuar justificando a destruição dos recursos naturais e prejudicando a qualidade de vida da humanidade, em nome do crescimento do PIB. Em vez de fomentar a inclusão, a integração, o cuidado e o acolhimento, tão próprios do universo feminino em sua capacidade natural de gerir e nutrir o futuro, o mundo desenvolvido patriarcal sustenta-se na segregação, exclusão e fragmentação dos sistemas humanos e naturais, fazendo a sua própria espécie chegar cada vez mais perto do fim. Para traduzir o significado de desenvolvimento tal qual foi concebido nos últimos cinquenta anos, temos que passar pelos que “possuem” e pelos que “não possuem”. Este conceito de desenvolvimento foi criado pelos machos-vencedores da segunda guerra, em particular, pelo Estado norte-americano, ainda mimetizado pela era Bush, para manter a dominação do sistema que viria acentuar com perversidade a exclusão e a injustiça social perpetrados pelo chamado das nações industriais. Depois de quatro décadas de avanço em seus direitos e com a valorização de sua identidade pública, as mulheres ainda sofrem desproporcionalmente o peso da pobreza, representando 70% dos analfabetos e daqueles que vivem à margem da economia. Com essa lacuna histórica, temos de ponderar que o desenvolvimento não fez pelas mulheres o bem que deveria ter feito. Talvez tenha causado mais estragos do que o próprio progresso, como afirma Vandana Shiva. O trabalho e o conhecimento das mulheres são fundamentais para a conservação da biodiversidade porque são elas que executam tarefas múltiplas. As mulheres, tal como os agricultores, tornaram-se invisíveis, não obstante sua contribuição, e devem ser incluídas nos orçamentos nacionais e internacionais. A ideologia patriarcal que opera sob a forma do capitalismo e do neo-colonialismo trouxe prejuízos irreparáveis para a vida das mulheres e deteriorou as relações humanas em expressões econômicas machistas, sectárias e racistas. Estamos até cansados, homens e mulheres, de saber que a economia global está em conflito com os sistemas naturais e com as mais elevadas aspirações da sociedade, considerando seu desenvolvimento físico, social e espiritual. Os pulmões do sistema financeiro mundial já não mais oxigenam o fluxo de capitais, que no apogeu do seu colapso, já derreteu boa parte da economia global, numa soma que já supera o que corresponde a 18 PIBs brasileiros. Estas tendências, que marcam o stress crescente na relação entre economia, sociedade e ecossistemas, estão destruindo a vida na terra. Estas tendências que contornam a problemática da governança e dos desmandos da economia, existem há muito tempo, mas agora a perversidade econômica, revestida de desenvolvimento, está ocorrendo nos padrões da dominação, hegemonia e concentração de riqueza por meio da privação dos pobres, e da relação assimétrica entre o Norte e o Sul. A esperança, combustível que aciona o motor do futuro, foi substituída pela necessidade, com a qual delicia-se a economia de mercado, perpetuando a dependência do consumo e a energia da ganância. Populações inteiras e plenas de potencial para criar e nutrir visões positivas sobre o futuro foram colonizadas pela idéia de que há algo além de suas possibilidades, gerando um sentimento de eterna frustração em torno daqueles que não foram incluídos no sistema econômico. No entanto, estamos no fim de um ciclo histórico. Podemos ver mudanças promissoras no horizonte temporal dos próximos dez anos. A cultura patriarcal que incorporamos durante oito séculos está por um fio, seja na sala de aula, seja no trabalho ou nas nossas cozinhas. A visão integral da realidade está desinstalando a velha idéia de separação entre Ciência e Espiritualidade, Razão e Emoção, Feminino e Masculino, Humanidade e Natureza. O sistema financeiro perverso está colapsando. Novos valores entram na agenda dos governos. Países com mais recursos naturais contrabalançam a falência dos recursos financeiros. Indicadores de produção e crescimento como o PIB já não se sustentam como pilares de riqueza de uma nação. A ONU já começa a pensar na felicidade, bem-estar e qualidade de vida como indicadores pós-modernos mais completos e evolutivos. Uma análise crítica sobre esse desenvolvimento fabricado pelo poder masculino e pelos economicamente mais fortes, não só elevou meu nível de consciência sobre o que estava diante dos meus olhos, mas também antecipou o futuro que estava adiante do meu pensamento. Depois de três semanas no Schumacher College, enlevada pela beleza dos bosques milenares de Dartington, no coração de Totnes, eco-cidade que já estuda a sua transição para viver sem petróleo, voltei revigorada pela fé na mudança e pela oportunidade que brota de toda essa tremenda crise. Existem as mudanças que acontecem e as mudanças que fazemos acontecer. Para que possamos fazer acontecer as mudanças, precisamos de um mínimo de fé naquilo que somos capazes de fazer para dar novo rumo à nossa história. Afinal, como diz um provérbio chinês, se não mudarmos de direção, acabaremos onde estamos indo. No próximo artigo, vou trazer algumas evidências de que um novo mundo está em gestação e para nutri-lo, temos que antes, alimentar nossa fé no futuro, esse futuro que já começou.

*Rosa Alegria é futurista, pesquisadora de tendências, comunicóloga e ativista de midia. É diretora de Conteúdo do Mercado Ético. (Publicado originalmente Envolverde/Mercado Ético)

29 de junho de 2009 - Posted by | ARTIGOS ASSINADOS, VISÃO PROFUNDA | , , , ,

1 Comentário »

  1. Olá…esse artigo de Rosa Alegria, publicado por a. barral, intitulado “Visões femininas sobre o mundo pós-desenvolvido”, analisando de uma forma filosófica uma a conjuntura pós-moderna, utilizando-se de uma visão femininista e futurista…simplesmente perfeito!!!
    Sucesso e parábens para Alegria.

    Comentário por Andréia | 17 de julho de 2009


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: